Tornar o arrependimento útil

Atualizado: Abr 22


Sou um grande defensor da crença que as palavras têm um importante peso - uma representação simbólica - como uma imagem que nos surge à mente associada a emoções e memórias do que aquela palavra representa.

Em consulta tenho muita atenção a este aspecto, não só às palavras que uso, mas também às que me dizem.


Contudo, também defendo que o trabalho terapêutico e o bem-estar passa por questionar estas representações e o peso que damos a certas palavras.


Uma das minhas favoritas é "arrependimento".

Sem rodeios, a representação simbólica da palavra não é agradável.


Frequentemente o arrependimento é paralisante. Num extremo temos quem vive o arrependimento do passado, ponderando no que poderia ter sido feito, no que se poderia ser hoje - normalmente com muita culpa e frases menos ponderadas onde o "poderia ter feito" é quase sempre "devia ter feito" - no outro extremo, quem não se arrepende de nada o que eu acho fantástico se estiver perante uma pessoa com uma capacidade infalível de se relacionar, comunicar, agir no problema, etc. - mas já não é tão fantástico porque na verdade nunca me deparei com semelhante unicórnio da perfeição - mas com nula capacidade de reajuste ou readaptação e apenas o fazem como defesa violenta ao peso - enorme e insuportável para esta pessoa - do arrependimento.


Mas podíamos fazer um exercício de relativizar o "arrependimento".

Um meio termo onde tentamos olhar para a palavra, e para o que simboliza, de outra maneira, de modo a que não seja nem uma ancora que nos prenda nem um bicho-papão para fugir e rejeitar.


Pode o arrependimento ser útil?

Então vamos nós usar e controlar o arrependimento em vez de ser ao contrário.


Primeiro é importante desdramatizar o arrependimento. Sentir arrependimento é um sinal de desenvolvimento emocional porque implica reconhecer as consequências. É preciso ter a capacidade para fazer uma avaliação e introspecção. Não apenas isto como o arrependimento é inevitável no sentido em que a vida é cheia de situações de escolha, custo-beneficio e males menores e um resultado natural destas escolhas divergentes. Tal como uma pessoa ancorada pelo arrependimento não se mexe, quem diz não se arrepender sofre a ansiedade de evitar o erro, e na verdade nenhum tem capacidade para fazer riscos calculados com consequências mais ou menos ponderadas.


O arrependimento é uma ferramenta evolutiva, no sentido em que podemos aprender com resultados anteriores e evoluir na nossa tomada de decisão.

Se reconhecemos estes arrependimentos aos outros é uma questão diferente, mas para nós, enquanto individuo, o arrependimento permite uma avaliação das nossas acções futuras e portanto, um constante crescimento pessoal.


No dia que paramos de sentir arrependimento, e de pensar sobre este, de fazer uma introspecção nas nossas decisões e objectivos, parámos de crescer.

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