Sou gay, lésbica ou bissexual. Como explicar à família?


Quando utilizamos a expressão coming out (versão reduzida de “coming out of the closet” ou numa tradução literal para português “sair do armário”), falamos de um processo de desenvolvimento, através do qual gays, lésbicas ou bissexuais reconhecem as suas preferências sexuais/afectivas e escolhem integrar esse conhecimento nas suas vidas pessoais e sociais. Desta forma, o processo de coming out encerra em si uma componente pessoal, mas que é integrada numa dimensão social mais vasta.


Este processo de desenvolvimento, iniciado na adolescência e inserido num processo global de formação da identidade, em que os jovens se começam a questionar e auto-identificar com uma determinada orientação sexual leva a uma necessidade de partilha com as pessoas mais próximas, nomeadamente com os pares e com a família de origem. Esta necessidade de partilha de algo tão estrutural das suas identidades e o desejo de autenticidade perante as pessoas mais significativas é muitas vezes vivida com ambiguidade e insegurança, uma vez que estes jovens são confrontados, mesmo com todas as transformações sociais vividas nas últimas décadas, com a presença de atitudes e mensagens homofóbicas (implícitas e explícitas) dos contextos sociais em que se inserem.


A revelação da orientação sexual no interior da família de origem constitui assim uma questão complexa e muitas vezes geradora de turbulência e conflito no sistema familiar, mas é inegável que cada vez mais jovens decidem assumir a sua orientação sexual perante os pais. As famílias tipicamente reagem mal no início, existindo por vezes reacções de distanciamento, rejeição emocional, violência verbal ou física ou até expulsão de casa.Contudo, e apesar destas reacções, sabemos que na generalidade das famílias, finda a crise inicial, existe uma maior aceitação com o passar do tempo. Trata-se de um percurso árduo, pleno de ambivalências, de avanços e recuos, mas também de autenticidade, intimidade e transformação que se desenvolve nas idiossincrasias de toda uma história, cultura e vida familiares.


Para finalizar esta pequena reflexão, deixamos algumas sugestões para os pais que se confrontam com a revelação da orientação sexual dos seus filhos. Estas sugestões, podendo parecer redutoras ou simplistas, baseiam-se num conjunto de situações frequentemente relatadas por pacientes gays, lésbicas e bissexuais no decorrer das suas psicoterapias individuais ou em questões e inquietações formuladas por famílias que recorrem a terapia familiar no decorrer do coming out dos seus filhos(as).


O que não deve fazer

1) Transmitir ao adolescente/jovem adulto de que se trata apenas de uma fase e que com o tempo vai voltar a ser heterossexual, desvalorizando todo o trabalho de preparação que o jovem fez para partilhar com os pais o que sentia;


2) Criar um pacto de silêncio sobre as questões relacionadas com os afectos e sexualidade dos jovens;


3) Criar um clima de confrontação e hostilidade que faça o ado

lescente ou jovem adulto sentir-se ainda mais isolado do que já se sentia antes do coming out (“sair do armário”);


4) Fazer ameaças de que ou o adolescente muda a sua orientação sexual ou é afastado da família ou expulso de casa;


5) Proibir o adolescente ou jovem adulto de se encontrar com os seus amigos ou namorados(as) que muitas vezes são apontados pelos pais mais intolerantes como responsáveis pela situação;


6) Fazer formulações culpabilizantes de que os filhos são gays, lésbicas ou bissexuais porque os pais falharam como pais ou que a orientação sexual dos filhos resulta de experiências infantis (ex: a mãe estava demasiado próxima e o pai era um pai distante);


7) Fazer comentários homofóbicos e que ridicularizam pessoas gays, lésbicas ou bissexuais;


8) Procurar psiquiatras e psicólogos com o objectivo de mudar a orientação sexual dos filhos.


O que deve fazer

1) Criar um contexto seguro para que o adolescente ou o jovem adulto fale abertamente sobre os seus sentimentos;


2) Assumir que, à semelhança do que foi vivido pelos filhos, os pais também necessitam de tempo para se adaptar à nova realidade;


3) Procurar informação especializada sobre questões relacionadas com a orientação sexual;


4) Se necessário, procurar um profissional de saúde mental especializado em questões de sexualidade;


5) Conhecer gays, lésbicas ou bissexuais que lhe possam assegurar que uma orientação sexual minoritária não é um problema e que lhe mostrem que essas pessoas podem ter vidas completas como homens e mulheres a todos os níveis;


6) Procurar outros pais que têm filhos gays, lésbicas ou bissexuais e que viveram situações semelhantes.




Para uma leitura mais aprofundada, poderá consultar a referência que se segue.

Frazão, P. & Rosário, R. (2008). O coming out de gays e lésbicas e as relações familiares.

Análise Psicológica, 1, 26, 25-45.

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