Ser sobredotado é um mar de rosas?


A sobredotação revela-se como um fenómeno complexo e multifacetado. Atualmente o conceito é aceite pela escola, família e sociedade em geral e há por isso um maior reconhecimento e integração das diferenças inter-individuais de cada indivíduo sobredotado.


A identificação dos alunos sobredotados é muito importante, sendo que quanto mais cedo melhor. No entanto, esta condição não deve ser vista como um objetivo último, uma vez que a identificação de um aluno sobredotado só fará sentido com a oferta de uma intervenção psicoeducativa eficaz tendo em conta as características e necessidades do mesmo.


O conceito de sobredotação era até meados do século XX associado ao domínio cognitivo, traduzindo-se num elevado nível de inteligência. Mais tarde, pelos anos 60, a sobredotação passa a ser encarada como um conceito multidimensional, colocando o enfoque nas áreas de capacidade e talento do indivíduo. Os alunos apresentam altas habilidades com características próprias, refletindo-se nos seus processos de desenvolvimento e de aprendizagem.


As variáveis individuais ganham relevo reconhecendo-se que estas podem funcionar como estímulos ou como inibidores da criatividade e do desenvolvimento do talento. Por outro lado, também os fatores contextuais como a família ou a escola podem funcionar como fonte de apoio ou como fonte stressante caso não prestem um acompanhamento adequado.


Apesar de não ser possível generalizar a todos os indivíduos sobredotados, podemos falar de algumas características que tendencialmente se verificam:

- Elevada capacidade de atenção e memória;

- Interesse genuíno e curiosidade;

- Elevada capacidade de raciocínio lógico-abstrato;

- Avaliação crítica de ideias, pessoas e acontecimentos;

- Criatividade;

- Preferência pela complexidade;

- Autonomia na aprendizagem

- Envolvimento e entusiasmo;

- Sentido de humor;

- Perfecionismo.


De forma resumida, o campo da sobredotação deve englobar sempre a interação entre habilidades acima da média (gerais ou específicas), criatividade (resolver problemas de forma flexível e ter pensamento autónomo) e envolvimento na tarefa (motivação intrínseca e esforço).


Mas será a sobredotação um mar de rosas?

Os alunos sobredotados chegam, por vezes, a consulta de psicologia deprimidos, com baixa auto-estima e com dificuldades de integração social. Efetivamente pode muitas vezes ter dificuldade na adaptação escolar pois estão mais sujeitos à desmotivação por acompanharem com demasiada facilidade as matérias escolares e estão mais expostos ao desinteresse se não forem cativados do ponto de vista da aprendizagem. É-lhes igualmente difícil lidar com o fracasso e com a dificuldade. São por vezes colocados de parte pelos colegas porque “têm a mania que são espertos”.


Neste sentido, é importante estar atento a algumas dificuldades que podem surgir nestes alunos, tais como: trabalhos escritos pobres e incompletos, falta de atenção, vulnerabilidade face ao fracasso, impaciência, sub-rendimento académico e dificuldades de aprendizagem.


A Psicologia apresenta-se como um auxílio importante no acompanhamento clínico, mas também no que diz respeito à avaliação destes casos, a nível cognitivo, emocional, motivacional e atencional.


A nível escolar, revela-se fundamental identificar e intervir com estes alunos de modo a terem um acompanhamento pedagógico apoiado. Da mesma forma que os alunos devem adaptar-se à escola, a escola no seu funcionamento, no que toca a conteúdos e metodologias também deve saber ser flexível, com planos de desenvolvimento adequados em função das diferenças dos seus alunos.


Para além da escola, a família tem também um papel muito importante. Devem acompanhar o percurso escolar dos seus filhos, existir envolvimento nas suas aprendizagens e pontos de interesse, incentivar à resolução eficaz de conflitos, e articular diretamente com a escola, no sentido de agilizar todo o apoio às necessidades observadas.

Diana Fonseca

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