Quando a alimentação saudável vira uma obsessão...

Há já algum tempo que tem havido uma mudança de perspetiva no que toca à temática da alimentação, com crescentes estudos que comprovam os malefícios que determinados alimentos provocam na saúde. De facto, estes estudos vieram trazer uma nova perspetiva sobre a comida, implementando níveis mais elevados de consciência alimentar na população, o que resultou numa maior preocupação com a saúde ao conciliar um olhar mais cuidadoso para a alimentação e para o exercício físico.

O problema surge quando esta preocupação se torna excessiva e influencia todo o quotidiano da pessoa, tomando-lhe demasiado tempo.

Estamos, desta forma, a falar de Ortorexia, que se define como sendo uma perturbação do comportamento alimentar onde existe um tipo de comportamento obsessivo e patológico, que é caraterizado pela fixação na alimentação saudável. Esta preocupação excessiva pela saúde pode ligar-se também a outra nova perturbação – vigorexia – que se carateriza pelo exercício físico em excesso.


E o que é uma obsessão? Segundo o DSM-V (2014), considera-se uma obsessão quando o indíviduo tem pensamentos, ânsias ou imagens recorrentes e persistentes experienciadas como intrusivos e indesejados e que causam marcada ansiedade.


Para melhor compreensão desta temática, vejamos o exemplo de um caso clínico:

Marta (nome fictício) estava a ser acompanhada em consulta psicológica há 4 meses porque a relação com o namorado estava em crise. Ao longo das consultas, a psicóloga foi-se apercebendo de alguns comportamentos excessivos que Marta mantinha:

  • passava horas no supermercado a analisar minuciosamente o rótulo dos alimentos;

  • pesava toda a comida que comia para cumprir com o plano de nutrição que mantinha;

  • não almoçava fora de casa porque não queria fugir do plano alimentar em nenhuma refeição;

  • levava, para onde quer que fosse, a sua marmita com a comida que tinha feito, por forma a não cair na tentação de comer algum alimento que não fosse considerado saudável.

Desta forma, acabava por se isolar socialmente porque já não comparecia nos jantares de amigos, uma vez que tinha receio de não haver comida que lhe agradasse no menu. Quando, por algum motivo, houvesse alguma situação que fugia do seu controlo, como por exemplo ter de comer algum alimento que considerava “menos saudável”, sentia remorsos e sentimentos de culpabilidade depois de o ingerir.


É importante referir que este quadro clínico ainda não está oficialmente reconhecido como uma perturbação pelo DSM, muito pelo seu caráter atual, mas está já a ser explorado por forma a que tenhamos mais estudos que corroborem o que já se sabe. Os estudos já existentes indicam que determinados grupos são mais suscetíveis de desenvolver este tipo de perturbação, nomeadamente os nutricionistas e estudantes de medicina.


Deste modo, a conclusão leva-nos a uma palavra importante: equilíbrio. Apesar de ser positivo ter uma consciência alimentar, não é aconselhável pensar excessivamente sobre esse assunto.


Iara Videira

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