PRE-OCUPAÇÃO

Atualizado: Mar 30

Assim começam os nossos dias. Acordamos, a primeira coisa que fazemos é isso mesmo, preocuparmo-nos com aquilo que temos de fazer e planear o nosso dia ao milímetro. São os trabalhos que ficaram por acabar, a conversa que planeamos ter com o nosso chefe e deixamos pendente, o que fazer no fim-de-semana, como arranjar forma de arranjar mais tempo e dinheiro...


Pre-ocuparmo-nos é o ato de ocuparmos o nosso tempo com pensamentos e sentimentos que não correspondem ao aqui e agora. O que leva a questionar: “Ando a viver a minha vida ou estou a viver focado/a no que pode acontecer?”, “Preocupar-me, já me trouxe benefícios?”, “Não serão as melhores coisas da vida aquelas que não planeamos, vivemos simplesmente e desfrutamos desse momento”?


Sofrer por antecipação, também pode ser um sinónimo de pre-ocupação. Deste modo, consideramos que a preocupação permite-nos lidar com a incerteza e gerar formas de prevenir que os acontecimentos negativos ocorram e, como tal, evitar o sofrimento futuro. É como se jogássemos ao “Quem quer ser milionário”. Há quatro possibilidades de resposta e só uma está certa, se escolheres a opção errada perdes. Planear estas opções de resposta podem nos dar a ilusão de controlo e, deste modo, chegar à resposta correta em direção aquilo que todos pretendemos: felicidade. Mas, e se a resposta não está em nenhuma destas opções? Se não podermos controlar sequer essas opções? E se a opção errada acabar por ser aquela que nos irá trazer importantes aprendizagens para o futuro?


É importante assim distinguirmos a preocupação normativa, dirigida a um acontecimento específico e controlável que, apesar de desagradável, não causa sofrimento significativo, da preocupação patológica. Quando nos referimos à preocupação patológica esta caracteriza-se por ser constante, incontrolável e infundada causando um grande sofrimento com interferência no dia-a-dia (trabalho, família, atividades sociais…). Falamos de um tipo de preocupação disfarçada de ansiedade dirigida ao futuro. Esta é dispersa, não é específica e há uma dificuldade em controlar. Nestes casos há ativação do Sistema Nervoso Simpático que leva a determinados sintomas (agitação, nervosismo, fadiga fácil, dificuldades de concentração, irritabilidade, tensão muscular, perturbação do sono). Ambas são muito semelhantes, pois os tópicos são idênticos, diferindo sobretudo na intensidade e na frequência.


Quando a preocupação é patológica onde, segundo alguns autores (Stapinski et al., 2010), passa a ser uma resposta de ansiedade provocada pela atenção e interpretação persistente das ameaças ambientais, às quais os indivíduos estão hipervigilantes, provocam determinados sintomas e um mal-estar clinicamente significativo, podendo estar presente o diagnóstico de Perturbação da Ansiedade Generalizada. Caracteriza-se por uma preocupação/ansiedade excessiva que ocorre durante a maior parte do dia, acerca de um número de acontecimentos ou atividades que podem variar ao longo do dia.


Segundo dados da DGS em 2017 e, sendo as Perturbações de Ansiedade das Perturbações Mentais mais comuns em Portugal, a proporção da população global em 2015 foi estimada em 3,6% sendo mais comum em mulheres (4,6% em comparação com 2,6% nos homens, a nível global). A nível mundial, estima-se que o número total de pessoas com Distúrbios de Ansiedade seja de 264 milhões.


Vários têm sido os estudos sobre o tratamento da Perturbação da Ansiedade Generalizada que demonstram que a terapia cognitivo-comportamental é uma terapia eficaz demonstrando existiram diferenças entre grupos comparáveis ou superiores aos encontrados com terapia farmacológica (Ladoucer at al., 2000; Linden, Zubraegel, Baer, Franke & Schlattman, 2005). Por sua vez, as principais linhas de intervenção terapêutica têm por bases modelos clínicos que demostram-se eficazes em reduzir a preocupação e os sintomas associados à PAG (Behar et al., 2009).



Rita Santiago

Psicóloga

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