Porque desejamos ver a vida em "rosa"?




La vie en rose, pink of perfection, mundo cor de rosa… a língua muda, mas o significado permanece lá, colocando o rosa como a cor da perfeição. Porque é que tendemos a associar o cor de rosa, em específico, a uma vida perfeita?


O cor-de-rosa é associado à doçura, à beleza, à tranquilidade e, de certo modo, à felicidade. Logo, quando pensamos numa vida “perfeita” tendemos a associa-la a esta cor. Não imaginamos a vida “vermelha” porque o vermelho nos remete para emoções mais agressivas ou ativas. As cores têm simbolismos e despertam estados de espírito.


Crescemos, nomeadamente as meninas, com os contos de fadas pintados a cor de rosa e com a ideia de que somos - seremos, queremos ser ou temos de ser - princesas perfeitas neste mundo cor de rosa. Mas isso também pode ser redutor. Que impacto é que este estereótipo e essa pressão em ser perfeita/cor de rosa pode ter no desenvolvimento da pessoa?


De forma geral, a sociedade atual vive sob uma grande pressão, não apenas porque nos ensinaram isso em criança ou porque nos disseram que tínhamos que ter uma vida perfeita, mas porque nós próprios nos permitirmos pouca margem para falhar. Nós próprios toleramos mal a nossa imperfeição. Contudo, crescermos a acreditar que as coisas serão perfeitas poderá preparar-nos mal para a adversidade da vida real, para os problemas que surgirão. Todavia, devemos compreender que, a infância deve ter uma dose de sonho e de algum “rosa”. O importante é que a criança/jovem, ao longo do seu desenvolvimento, se vá confrontando com a adversidade, com a imperfeição e vá gerindo essa frustração. Contudo, tudo tem o seu tempo e este é um processo gradual e ajustado. A adversidade com que nos confrontamos aos 5 não é a mesma com que nos confrontamos aos 20.


E porque é que temos tendência em colocar as meninas na caixa das princesas? É algo inato às meninas ou é uma noção incutida pelos adultos?


Isso é algo muito cultural e remonta aos tempos medievais. Os homens eram treinados para serem valentes cavaleiros e lutadores e as mulheres para serem delicadas, boas donas de casa e boas mães. De alguma forma, esta ideia está ligada também à noção de delicadeza e de sensibilidade que mais facilmente se atribui à mulher do que ao homem. Os homens também são incluídos na caixa dos príncipes. A diferença é que a caixa dos príncipes tem outras obrigações e estereótipos, não melhores que a caixa das princesas. Ter que ser forte e destemido também é uma pressão enorme. De forma geral, funcionamos através de categorizações. Precisamos distinguir as coisas, nomear ideias e objetos e ser entendidos pelos demais. Isso apenas é conseguido através de categorizações. Ao dizermos “vida cor-de-rosa” todos nós sabemos o seu significado. Isso é uma categorização, muitas vezes necessária à compreensão entre as pessoas no processo de comunicação.


Esta expectativa em ser perfeita e a crença no mundo cor de rosa gera inevitavelmente desilusões - porque o mundo não é cor de rosa, tem muitas cores e nuances; e a perfeição absoluta não é real. Que género de consequências psicológicas, patologias ou síndromes podem ser desencadeados por esta ideia que nos é incutida desde crianças?


A vida não é perfeita mas nós podemos aprender a navegar na imperfeição e a dar-lhe a mão, fazendo dela nossa amiga. A busca da perfeição pode traduzir-se de muitas formas, seja através de uma personalidade mais obsessiva, seja através de comportamentos ritualizados, perturbações associadas à imagem corporal, entre outras. Podemos ainda permanecer em estados de inadequação ao contexto, imaturidade ou dificuldades em “crescer” e assumir responsabilidades. Esta dificuldade pode, efetivamente, ter impacto a vários níveis e manifestar-se de formas variadas.



Para usar uma ótima expressão sua, somos “reféns da perfeição” e somos nós que nos colocamos lá. Porque é que, apesar de percebermos isso e de nos apercebermos que o mundo não é cor de rosa e perfeito, continuamos a perpetuar essa noção para os mais novos?


Porque apesar de tudo, somos rígidos nas nossas conceções, porque são aprendizagens que fazemos desde cedo e com as quais crescemos e convivemos durante anos. Alterar isso não é fácil. Lá no fundo, queremos continuar a lutar por essa perfeição. Precisamos praticar a autocompaixão e a aceitação, fazendo as pazes connosco próprios e com as nossas falhas. Só assim conseguiremos fazer diferente a seguir. Contudo, é importante entendermos que precisamos ter objetivos e que, embora nos seja permitido falhar, isso não é sinónimo de conformismo e de nem sequer tentar.



Como podemos mudar esse comportamento? Como podemos quebrar o ciclo vicioso de sermos reféns da perfeição?


Como disse acima, temos que nos reconciliar connosco próprios, perdoarmo-nos nos nossos erros, percebermos que podemos ser felizes na imperfeição. Tolerar a frustração de que não conseguiremos sempre, mas compreender que isso não é o fim.


A crença no mundo cor de rosa também nos traz alguma esperança, também nos dá um móbil para continuarmos a viver de uma forma positiva - é correto dizer-se isto? A crença no mundo cor de rosa e na busca da perfeição também traz pontos positivos? Quais?


A verdade é que pode atenuar algumas frustrações. Se começarmos a olhar para o mundo “negro”, carregaremos desalento e desanimo. Precisamos também acreditar no lado bom das pessoas, do mundo e esperar o melhor. Retirar-nos isso pode ser retirar-nos o sentido da vida. Além disso, esta ideia pode fazer-nos em alguns momentos alcançar o que julgávamos não conseguir, lutar para alcançar algo, persistir. Só precisamos é de encontrar o equilíbrio no meio disto.


Acreditando que também não se pode deixar completamente de acreditar num mundo a cor de rosa, correndo o risco de cair no extremo oposto de assumir uma atitude fatalista perante a realidade, como é que se atinge o equilíbrio? O processo de compromisso entre a vontade de ser perfeito e a noção de que é ok não ser é algo que é uma constante na nossa mente?


Devemos fazer uma boa avaliação de nós mesmos, das nossas competências e caraterísticas. Desse modo, poderemos entender qual o momento de continuar e o momento de parar. Refletir sobre as coisas é muito importante. Talvez o segredo seja a persistência aliada ao perdão nos momentos em que falhamos.


E porque é que é tão difícil aceitar que não somos perfeitos, que não somos (ou podemos não ser) “cor de rosa”?


Ninguém gosta de se olhar como um ser imperfeito ou que erra. Fere o nosso orgulho, magoa a nossa autoestima. Não raras vezes travamos “batalhas” apenas para provar que temos razão. Não ter razão é visto como uma imperfeição. No limite o que procuramos é ser aceites, validados e amados e, acreditamos que isso apenas acontece, se formos perfeitos. Como se apenas a perfeição fosse “amada”. O nosso medo último é a rejeição.


Adaptado da entrevista concedida à Vogue Portugal

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