Quando os rituais dos pequenos nos preocupam- um olhar sobre a POC infantil.

Atualizado: Jan 18

A perturbação obsessivo-compulsiva ou POC, corresponde a uma disfunção neuropsiquiátrica que afeta grande parte da população. Em cada 100 pessoas, duas são afetadas pela perturbação, sendo que, é mais comum do que a maioria de nós imagina. Entre elas estão tanto adultos, como adolescentes e até crianças a partir dos 2 anos. É uma patologia que pode ter um curso relativamente breve ou tornar-se crónica, dependendo de muitos outros fatores. Contudo, em todas as situações é percetível o grande impacto no funcionamento social, académico, profissional e ocupacional que acarreta.


Como se manifesta?

A POC diz respeito à presença de pensamentos automáticos e intrusivos, imagens mentais ou impulsos indesejados e recorrentes. A estes pensamentos damos o nome de obsessões e podem ser de vários tipos: contaminação, religiosos, ordem, sexual, impulsos, superstições… Contudo, seja qual for a temática presente, existe uma característica constante que é o desconforto e ansiedade causados. Por vezes, estas obsessões são completamente irracionais e até o próprio individuo as vê como absurdas, contudo, não se consegue abstrair delas.


As compulsões surgem no seguimento desses pensamentos, como ações repetidas para lidar com a ansiedade produzida. Dizem respeito a comportamentos ritualizados cujo objetivo é diminuir a ansiedade causada pelos pensamentos intrusivos.

Por exemplo, ao surgir a obsessão “Se eu tocar em objetos fora de casa, serei contaminado por bactérias”, surge a compulsão de lavar as mãos repetidamente, para de alguma forma evitar a contaminação e diminuir a ansiedade que poderá causar esse pensamento.

Estes comportamentos podem ser visíveis e percetíveis por quem está à volta (E.g.: lavar mãos, organizar objetos…) ou ser impercetíveis (E.g.: contagens, rezar…).

Entre as obsessões mais comuns encontram-se a contaminação por bactérias e germes associados à compulsão de limpeza do próprio corpo ou de locais específicos.


Em crianças:

Como já foi referido, esta perturbação existe em todas as faixas etárias, sendo o diagnóstico mais precoce dos 2 anos de idade até à infância tardia ou adolescência. Cerca de metade dos adultos com POC iniciou na infância.

São sintomas comummente confundidos com “manias” e por vezes desvalorizados pelos próprios pais e até profissionais de saúde. Sendo estes graduais e progressivos, é natural que ao longo do tempo vão surgindo com mais intensidade e frequência se não for feito um acompanhamento especializado. Muitas vezes, os jovens e adolescentes têm vergonha destes pensamentos, por os sentirem como absurdos ou até como inaceitáveis ou imorais, reforçando as dificuldades do mesmo à medida que os sintomas aumentam assim como a ansiedade e sofrimento. Quando estas dificuldades são identificadas, muitas das vezes na idade adulta, estes rituais já são demasiado intensos e enraizados, tornando a recuperação mais lenta.

Alguns dos rituais encontrados nas faixas etárias mais jovens estão relacionados com a escola: “para o teste correr bem, tenho de entrar e sair da sala 3 vezes”, “para o jogo correr bem tenho de usar aquela camisola especifica”… É importante dar atenção a estes comportamentos e observar de perto a sua evolução, mas também é importante não “patologizar” ou seja, não assumir todos os comportamento ritualizados como uma POC. Nem todos o são, algumas crianças têm rotinas diárias mais definidas (E.g.: brincar com o mesmo brinquedo, organizar a comida ou os lápis de cor de uma determinada forma…) e não existe problema nenhum nisso. Estes mesmos comportamentos tornam-se um problema e devem ser alvo de intervenção quando causam sofrimento à pessoa e têm impacto no funcionamento da mesma.


Causas:

Sabe-se através de estudos científicos que 10% das crianças com POC têm pais com POC também. Ao longo do desenvolvimento as dificuldades dos pais vão sendo passadas para os mais pequenos mesmo que de forma inconsciente. Por outro lado, a própria genética tem um peso no desenvolvimento desta perturbação, sendo maior quanto mais cedo tiver surgido.

As características pessoais como a ansiedade, sensação de falta de previsibilidade ou controlo, baixa tolerância ao desconforto, são algumas das que frequentemente se encontram em crianças com POC.


Prognóstico:

Tal como já foi referido, pode ser uma perturbação relativamente limitada no tempo ou tornar-se crónica. Este curso é influenciado por vários fatores: a idade em que surge, idade em que se inicia o tratamento, o próprio contexto de vida…

Os pais, têm um papel fundamental neste percurso, nomeadamente na deteção e cooperação no tratamento. É importante que no seio familiar se evite a “acomodação”, ou seja, que os pais não cedam aos pedidos dos filhos no sentido de se adaptarem aos rituais. É importante contrariá-los mesmo que gere sofrimento, pois as consequências de não o fazer e o alívio imediato causado pelas compulsões reforçam as dificuldades.

O prognóstico é pior quando surge a POC na infância, mas a intervenção precoce é a que representa um melhor prognóstico. Portanto, a identificação destes sintomas o mais cedo possível vai permitir um melhor resultado terapêutico.


Sara Cruz

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