Perturbação do Espetro do Autismo (PEA)

“O mundo assusta-me frequentemente porque todas as minhas perceções sensoriais entram de uma vez. Entram todos ao mesmo tempo e simplesmente não consigo diferenciá-los. Um estímulo pode ser tão forte que não consigo concentrar-me noutras coisas. Um átrio cheio de gente pode ser barulhento, o que eu considero transtornante. Para além disso, as pessoas estão demasiadamente próximas de mim. Poderá haver um cheiro a comida ou a perfume, e possivelmente luzes fluorescentes a murmurar. Normalmente, é o barulho que me afeta, porque o acho o mais doloroso. Quando estou nesse átrio, o barulho envolve-me de tal maneira que já não me consigo concentrar na luz ou nos cheiros, que por sua vez me afetam ainda mais.”- Dumortier (2002)


Este pequeno trecho de um livro mostra na primeira pessoa o que é viver com uma Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), e do sofrimento que lhe acarreta. É possível perceber algumas dificuldades associadas à perturbação, que falarei mais à frente em detalhe, nomeadamente a dificuldade de processar a realidade e todos os estímulos associados. Para alguém com PEA existe o desafio e luta diários de tentar dar sentido a um mundo complexo, visto como uma massa de pessoas, objetos, lugares e acontecimentos.


O que é a Perturbação do espetro do autismo?

Tal como o nome indica, existe um espectro no qual as pessoas com este diagnóstico se situam. Isto significa que não existem duas pessoas afetadas igualmente pela perturbação, nem que se situem exatamente no mesmo ponto do espetro, sendo uma perturbação extremamente abrangente no que diz respeito às suas manifestações.

Atualmente, esta engloba várias perturbações antes referidas como Autismo Infantil Precoce, Autismo Infantil, Autismo de Kanner, Autismo de alto funcionamento, Autismo atípico, Perturbação de Asperguer… A PEA é agora conhecida como o termo “guarda-chuva”, ou seja, o termo que abrange todas estas variações possíveis.


Contudo, existem dois pontos comuns importantes para o diagnóstico (A e B):

A. Défices significativos na comunicação e interação social

  • Interação anormal, dificuldade em estabelecer conversas, não partilha de interesses, emoções ou afeto, falta de iniciativa nas interações;

  • Linguagem não-verbal desadequada ou não congruente com a comunicação verbal, nomeadamente a falta de contacto ocular e a fraca utilização de expressões faciais e gestos;

  • Dificuldades de desenvolver, manter ou compreender relacionamentos, mantendo uma dificuldade acentuada em ajustar o comportamento ao contexto social e ausência de interesse nas pessoas;

B. Comportamento, interesses e atividades restritas e repetitivas.

  • Discurso, movimentos motores ou uso de objetos estereotipados ou repetitivos (Ecolália- repetição de sons ou frases, uso constante de certos objetos, estereotipias motoras simples- E.g.: Balançar-se)

  • Adesão excessiva a rotinas e resistência a mudanças- E.g.: stress se for utilizado outro caminho para casa;

  • Interesses anormalmente restritos e fixos: forte apego ou preocupação com certos objetos, temas ou atividades, números, letras e símbolos, interesse em partes não funcionais dos objetos, medos invulgares- E.g.: pessoas com brincos;

  • Hiper ou hiporeatividade a estímulos sensoriais- E.g.: sobrecarga sensorial, fascínio por luzes ou sons;

PEA nas raparigas

É muito mais comum as manifestações de uma perturbação do espetro do autismo passarem despercebida nas crianças do género feminino. Isto deve-se ao facto de serem interpretadas como crianças com personalidades mais passivas ou com poucas capacidades sociais. São raparigas que normalmente não atraem a atenção, ao contrário dos rapazes com PEA. Normalmente, estes são um elemento perturbador nas salas de aula daí serem mais facilmente detetados.


Etiologia: Origem da perturbação

Quando se fala da forma como esta perturbação surge, aposta-se maioritariamente em fatores genéticos. Contudo existem também fatores ambientais que podem influenciar o seu aparecimento como a idade dos pais, aumentando assim a probabilidade de erros nos processos genéticos, problemas na gestação (certos medicamentos, infeções, radiações…) ou à nascença (prematuridade ou outras complicações).


Apesar da provável componente genética e origem pré-natal, a PEA é normalmente diagnosticada depois dos 2/3 anos de idade através das dificuldades de relacionamento, atrasos no desenvolvimento, comportamentos atípicos... Contudo, a deteção e intervenção precoce pode fazer uma grande diferença da evolução destes casos. Não existe uma cura para a perturbação do espetro do autismo, não sendo esse o objetivo da intervenção. O objetivo maioritário é aumentar a funcionalidade e flexibilidade mental destas crianças reduzindo o desconforto e interferência no seu dia-a-dia de modo a que se possam tornar jovens e adultos o mais funcionais possível.

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