O tabu do suicídio

Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicados em setembro de 2019, estima-se que por ano 800000 pessoas morram por suicídio em todo o mundo. Estes dados tornam-se ainda mais preocupantes quando nos apercebemos que o número de tentativas de suicídio (sem “sucesso”) é 20 vezes superior ao número dos suicídios que terminam em morte. Este tornou-se a terceira maior causa de morte de jovens na faixa dos 15 aos 19 anos. Em Portugal, relativo ao ano de 2018 do INE, a taxa de suicídio rondou as 9,7 pessoas por cada 100000 habitantes, sendo a região do Alentejo a mais afetada.


As consequências do suicídio não se restringem somente à pessoa que decide terminar com a própria vida. Esta decisão tem um impacto significativo no seio familiar assim como na sociedade em geral, sendo considerado neste momento um problema de saúde pública.

Existe uma correlação cientificamente bem definida entre o suicídio e perturbação mental, nomeadamente a depressão, pelas próprias características da doença.

Dois grupos de pessoas destacam-se quando falamos desta temática são: pessoas que experienciaram algum tipo de trauma (conflito, violência, abusos, isolamento...) e minorias associadas à discriminação frequente (refugiados, emigrantes, comunidade LGBT, presidiários...), devido à associação entre as exigências sociais e emocionais impostas a estas pessoas. Contudo, as estatísticas são meros indicadores, porque o suicídio, assim como a doença mental, acontece com qualquer pessoa independentemente da idade, género ou fatores socioeconómicos.


O diretor da OMS, Dr. Tedros Adhanom, referiu: “A cada 40 segundos morre uma pessoa de suicídio. Qualquer uma destas mortes é uma tragédia para a família, amigos e colegas. No entanto, é possível preveni-lo”.


Mas quais os obstáculos à prevenção?

Os obstáculos estão muitas vezes interligados a fatores socioculturais.

O principal obstáculo que encontramos na prevenção do suicídio está relacionado com a razão pela qual decidi escrever esta reflexão: o estigma. O estigma relacionado com a doença mental e com os problemas psicológicos são um dos principais motivos que faz com que estes números sejam tão elevados. O estigma e o tabu estão na nossa sociedade, por todo o nosso país e nas nossas próprias casas. Está presente em afirmações como: “ele é doido; ela é maluca; são só coisas da cabeça dela; ele é anormal; a depressão é estar triste...”. Ou seja, surgem muitas das vezes da ignorância, da falta de informação e da existência de crenças completamente erradas acerca da doença mental. O rótulo colocado nestas pessoas e nestas dificuldades, tem um peso tão grande que impede muitas das vezes a pessoa de pedir ajuda quando precisa, porque pedir ajuda é para “malucos” ou “fracos”.


Sejam quais forem as razões que levem alguém a suicidar-se um fator chave é a desesperança, desespero e sentimentos de incapacidade e efetivamente, é necessário aceitarmos que qualquer um de nós poderá, nalgum momento da nossa vida, necessitar de ajuda para sair “do buraco”. Muitas vezes, o buraco da depressão é tão profundo e negro que é necessária ajuda de um profissional de saúde.


Existem também uma série de mitos associados que contribuem para a propagação de uma atitude passiva, como: “As pessoas que ameaçam matar-se não o farão”, “Quem se quer matar não avisa antes”, “Quem se quer matar vais acabar por se matar de qualquer forma”. Estes mitos têm necessariamente de ser desconstruídos, porque muitas das vezes a ajuda é pedida e os sinais são dados, mas o estigma associado pode levar-nos a desvalorizar essas dificuldades.


Outro fator que considero importante está relacionada com uma ideia muito enraizada culturalmente: “O objetivo da vida é ser feliz”. Esta ideia leva-nos a procurar afincadamente a felicidade e ao longo dos anos, o ser feliz, foi-se tornando uma necessidade tão grande, que a procura da felicidade começou a ser um problema. O que está a acontecer de forma muito abrangente é que estamos a interpretar de forma irracional o que é realmente a felicidade e o ser feliz, aumentando assim a nossa dificuldade em processar e aceitar emoções negativas (completamente saudáveis). A crença associada à felicidade leva ao surgimento da ideia de que “se eu não SOU feliz (quase como se fizesse parte do nosso autoconceito) eu falhei"- diminuindo assim a nossa esperança no futuro e na nossa capacidade de “cumprir o objetivo”. O suicídio pode ser visto, desde ângulo, como uma resposta à pergunta se a vida vale a pena ou não ser vivida (se eu não sou feliz e não cumpro o objetivo).


Nós temos o dever de assumir um papel ativo e educar as pessoas à nossa volta para as questões da saúde mental e para isso o primeiro passo é normalizar o impacto que a doença mental tem, normalizar também o “pedir ajuda” e compreender que efetivamente os profissionais de saúde mental têm um papel essencial nas nossas vidas e podem fazer a diferença no momento de premir o gatilho ou não.



Sara Cruz

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