O meu filho não me conta nada

Atualizado: Abr 22



"O meu filho não me conta nada do dia dele" é uma frase que ouço quase semanalmente. Por vezes num desabafo resignado seguido de "fazer o que...estão a crescer não é?", ou num registo mais nostálgico, de quem se apercebeu de uma alteração na relação pais/filhos que é como que se estivesse a assinalar o fim de algo que se perdeu e não se volta a ter. Independentemente do tom com que a frase é dita, a preocupação é a mesma. É uma preocupação relacional. Os pais querem relacionar-se com os filhos, querem saber como estão, se o dia foi bom, como se sentem, em resumo, são felizes?


Claro que na óptica de uma criança esta frase não é tanto um pedido de aproximação e afecto, mas um inquérito ao qual eles não encontram propósito.


Portanto, tranquilizem-se os pais dos filhos que "não lhes contam nada", a recusa dos filhos em "contar o dia" não é falta de afecto ou carinho, é apenas a linguagem dos adultos e das crianças que frequentemente não é a mesma.


Se por um lado conforme as crianças ao crescerem alargam o seu círculo de amigos, no qual os pais não pertencem (nem devem), por outro, é importante a criança crescer a compreender que os pais serão sempre um porto seguro de confiança, afecto e incondicional compreensão. Quer isto dizer que é natural, e expectável, que a criança ao crescer vá criando um círculo de confidentes que não serão os pais. Mas a mensagem de amor incondicional deve ser mantida. Então o que fazer quando os filhos "não contam nada"?


Como digo e repito diversas vezes em workshops para pais e educadores, não existem fórmulas mágicas. Cada criança é um indivíduo único e a abordagem terá que ter em consideração a personalidade de cada criança. Contudo há estratégias que podem ajudar mais frequentemente do que outras.


A frase "como foi o teu dia?" é facilmente respondida com um "bom", e "o dia correu bem?" com um "sim", e daqui não saímos. Às vezes vem um exasperado "mas o que fizeste hoje?", que leva um "nada" como resposta.


Com crianças entre os 5 e os 7 anos normalmente funcionam muito bem estratégias como se a conversa fosse um jogo: "Olha, vamos fazer uma lista/jogo, diz duas coisas que tenhas gostado no dia de hoje", normalmente isto tem uma resposta, pode ser uma resposta banal como dizer que gostou do almoço naquele dia, mas podemos fazer uma conversa longa sobre cada acontecimento "bom". "E agora, duas coisas que não gostaste tanto hoje", e igualmente aqui, escutar, conversar, conhecer o nosso filho.


Normalmente esta estratégia ao longo dos anos é suficiente para estabelecer um hábito relacional. A criança já sabe que todos os dias há um espaço para falar do que gosta, e do que gosta menos, e vai aprender a gostar de falar com os pais. Claro, há dias em que vai haver silêncio e também é importante respeitar o silêncio.


Quando crescem, entre os 7 anos até aproximadamente à pré-adolescência, normalmente também funciona bem acentuar a troca de informação. Aqui o adulto pode começar a contar coisas do seu dia. Coisas banais, mas todas as crianças têm interesse e curiosidade sobre como é o trabalho da mãe ou do pai. Podemos conversar como é feito o trabalho dos pais no dia-a-dia, coisas que são rotineiras, mas novidade para uma criança que só sabe o que é a escola. Chegando à pré-adolescência podemos perguntar sobre colegas de turma. Uma criança ao falar dos outros fala muito de si, principalmente fala de como se dá com os outros. Facilmente um pré-adolescente fala de colegas mas ainda mais facilmente nos diz como se posiciona face a esses colegas. Podemos também, com a devida cautela, falar de nós próprios quando tínhamos a mesma idade. A escola mudou muito desde de que tínhamos a idade dos nossos filhos, a sociedade também, para eles, as histórias da nossa infância são histórias de outros tempos que vão escutar com interesse. Principalmente, saberem aspectos da nossa infância não nos desautoriza como alguns pais receiam. Humaniza.


Aos olhos de uma criança, principalmente pequena, é difícil pensar que as dificuldades e situações pelas quais eles passam, os pais também já passaram. Para eles, os pais nunca foram adolescentes, crianças ou sequer bebés, mas nasceram adultos com um empréstimo à habitação na mão.


O objectivo na educação não é sermos amigos dos nossos filhos, mas educar estes para que daqui a uns anos eles sejam adultos com quem nos consigamos relacionar como iguais. Para isto o "como foi o teu dia?" deve ser um exercício relacional que humaniza e permita a empatia e a escuta activa.


O importante é que seja uma conversa, se for para ser um jogo, que seja um jogo de "agora-tu-agora-eu", tem que haver troca, caso contrário é de facto um interrogatório e não uma conversa. E repetindo, em nota final, mais do que querermos saber os detalhes do dia dos nossos filhos, queremos saber como eles são e como os estamos a educar para ser.

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