Memória e… a minha falta dela

“Inicialmente começaram por ser os nomes, eram tantos netos, os filhos das sobrinhas, se já tinha ou não tomado os comprimidos da manhã … que considerei normal para a minha idade falhar-me a memória. Depois passou a ser a escrita, onde já não me lembrava exatamente como assinava. Mais tarde foi em casa, esquecia-me da panela com o lume acesso, até começar a ser rotina e eu ter deixado de cozinhar”.


“Sempre fui uma pessoa um pouco esquecida, esquecia-me onde guardava os papéis das contas de casa, onde tinha deixado as chaves... Mas agora noto que preciso mesmo de me esforçar para não me esquecer, preciso de alarmes e agendas e, mesmo assim, ainda me falha algumas coisas.”


A nossa memória tem características únicas e dentro dela existem diferentes compartimentos que armazenam informação específica como se de um sistema de arquivamento se tratasse. Em primeiro lugar criamos o ficheiro original, em segundo, colocamo-lo na secção correta e, por fim, encontramos novamente o ficheiro quando é necessário, chamamos a estes três processos, codificação, armazenamento e recuperação.


O acto de esquecer, sendo este um dos complexos processos que ocorre no cérebro, é uma das funções essenciais que nos permite ir coleccionando nova informação permitindo-nos tomar decisões mais inteligentes. Novas investigações, pela Universidade de Toronto, revelam que o nosso cérebro investe uma quantidade de energia e de recursos que nos permite esquecer para que possamos libertar informação que já não nos é tão relevante. Tal como um computador, quando a sua memória está cheia, necessita de que seja colocada informação irrelevante na “reciclagem”.


Quando recebemos a informação estamos a usar partes essenciais no cérebro responsáveis pela sua codificação que só depois é que irá ser armazenada nos vários tipos de memória, organizados em diferentes áreas cerebrais, e envolvidos em diferentes tarefas do dia-a-dia. Tal informação poderá estar armazenada de forma consciente na memória declarativa, ou de forma inconsciente, na memória não declarativa.


Há acções que desempenhamos de forma automática, como o andar de bicicleta, na qual esta informação encontra-se armazenada na tal memória não declarativa responsável pelos procedimentos motores e capacidades não verbais que usamos no nosso dia-a-dia e nem temos consciência que a usamos. No entanto, aquela que encontramos mais dificuldades de aceder no nosso dia-a-dia, é a informação que processamos de forma consciente na memória declarativa. A memória semântica que nos permite recordar factos e conhecimentos de carácter geral, funcionando como uma espécie de “enciclopédia” que contém de forma estruturada as informações, conceitos, significados, como por exemplo, lembrar o nome do feriado alusivo a uma data especial, o nome do apresentador que está a dar na televisão, entre outros. Já aquela memória que está relacionada com a própria vivência e experiências pessoais, a memória episódica, está registada num tipo de memória diferente que nos permite não só recordar o contexto (temporal e espacial) por nós vivenciado, mas também as emoções e as sensações envolvidas, por exemplo, quando nos lembramos do orgulho que sentimos ao ver um filho a completar uma etapa importante na sua vida.


Falamos, portanto, da memória a longo prazo que é aquela que poderá falhar com maior frequência. Mas… a partir de quando é que não é normal estas “falhas”, “esquecimentos”? Quando é que devo perceber que devo procurar ajuda profissional? A que devo eu estar atenta/o?


É fundamental, em primeiro lugar, percebermos se existem factores que podem perturbar a nossa memória, nomeadamente, aspectos emocionais e contextuais que desencadeiam stress e ansiedade e que podem afectar a recuperação da informação, ou se poderá estar implícito um défice na sua capacidade de percepção e codificação da informação, pela gravidade de esquecimentos e da forma que nos têm limitado no nosso dia-a-dia, afectando o nosso rendimento, assim como outras capacidades como a atenção e concentração, planeamento e organização. Neste caso, não deixe de estar informado e consulte um profissional na área da neuropsicologia.


Como é que podemos prevenir estas falhas ou melhorar a nossa memória?

1- Associações múltiplas: criar relevância no nosso cérebro associando os factos que queremos recordar a outras categorias da nossa vida que consideramos mais interessantes/relevantes, ajuda a criar maior nº de ligações sináptica o que possibilita que esta informação não se perca tão facilmente e passe a estar armazenada na nossa memória a longo prazo.

2 – Usar pistas sensoriais: nomeadamente, pistas visuais, olfativas e auditivas.

3 – Construir uma história: que permita integrar os factos relevantes.

4 – Higiene do sono: o sono saudável ajuda no funcionamento da memória, uma vez que, durante o sono, as ligações da memória a longo termo ocorrem durante o sono profundo,

5 – Uso e abuse da tecnologia, agendas, post-its, tudo o que sentir confortável para que, mesmo que a sua memória possa falhar, estará a informação armazenada em outro local. Afinal, não precisamos de relembrar todas as informações ao pormenor!


Rita Santiago




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