Luto, quando se torna complicado...

O significado da morte é inevitavelmente associado a uma experiência dolorosa e, consequentemente, negativa. A forma como a integramos, sobretudo a dor associada a esta, é como definirá o seu trajeto.

A morte por isso, deve ser considerada como um processo natural e previsível, daí a importância de inclui-la no discurso social, de modo a ser encarada com maior “naturalidade” e como um facto inelutável da vida.

O processo de luto, por sua vez, é uma reacção face a uma perda, não uma doença. É portanto, um processo normal, íntimo e dinâmico, assim como, dependente do reconhecimento social pois poder partilhar as emoções com os outros, ajuda à recuperação. Para além disso é um processo activo e não passivo. Podemos modificar a situação da dor mas não podemos fazer nada com o que acontece, apenas com o que sentimos.

O Ser Humano está programado para se separar sem se destruturar. Esta reacção psicobiológica normativa para lidar com as separações no quadro de vínculos afectivos estruturados é auxiliada por mecanismos pessoais, familiares, antropológicos, sociais e culturais para fazer permitir ao indivíduo superar e reintegrar-se na sua perda.

Tais mecanismos de coping, estratégias adaptativas que possuímos, poderão estar enfraquecidos por factores internos e/ou externos, podendo o luto ser incapacitante. Assim, poderá acontecer que pessoas enlutadas, algum tempo após a morte (≥ 6 meses), não consigam dar sentido à sua vida e desenvolvem esquemas de conduta desadaptativos e significativo de sofrimento. Pode-se assim observar, recusa em aceitar a realidade da perda e em reiniciar actividade de prazer e de assumir compromissos sociais sem a pessoa falecida.

Este processo de luto desadaptativo deve-se ao facto de a pessoa ter dificuldades em elaborar e dinamizar mentalmente as memórias e outros sentimentos associados (culpa e revolta, por exemplo). A solidão emocional, por sua vez, é um dos sentimentos mais comuns na pessoa enlutada, que, de forma diferente de uma solidão comportamental em que a pessoa está desprovida de apoio social, a pessoa enlutada embora tendo suporte de outras pessoas, sente-se profundamente só com as suas emoções, pensamentos e sentimentos.


Como qualquer outra perda que ocorre ao longo do desenvolvimento, a pessoa enlutada terá várias fases emocionais que acarretam alguns sentimentos dolorosos até à sua aceitação e reorganização.

Reorganizar a experiência de perda vivida, acarreta vivenciar tais sentimentos e emoções associadas.

Tal como um rio que transporta folhas, troncos e detritos, nós transportamos os nossos pensamentos, sentimentos, imagens. Podemos assim, tentar travar o trajecto do rio, colocando barreiras, remando contra a maré e fazer esforços para não seguir o seu percurso natural. Por outro lado, podemos minimizar tais esforços e ficar na margem a contemplar os nossos pensamentos e imagens. Assim, tal como um rio, irão seguir o seu curso até chegar ao mar e a um oceano cheio de novas experiências e desafios, dando assim espaço para o crescimento pessoal.



Rita Santiago

Psicóloga

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