Lugar da família no processo terapêutico




Na sua gênese, o processo terapêutico envolve um ato de mudança.

Independentemente do desfecho do processo terapêutico, do grau das mudanças comportamentais e emocionais que se atingem, o momento-chave de constatação e reconhecimento que existe sofrimento é em si mesmo um ato de mudança. O inicio de um momento de introspeção e análise sobre nós mesmos, as pessoas em nosso redor, a sociedade onde nos inserimos.

Nas primeiras consultas acrescento também outros objetivos a este ato de mudança, no qual o processo terapêutico é também um ato de:

  • autoconhecimento

  • tolerância

  • compreensão

Ao longo do processo terapêutico vou relembrando estes objetivos, pois mais que frequentemente o foco perde-se. Que ganho existe em se ter uma clara compressão dos "porquês" sem existir compreensão e tolerância? Apenas nos afundamos na culpa, culpa essa que impede a mudança. Ou de que serve a mudança sem compreendermos porque a fazemos? Recaímos para a intolerância sobre nós próprios. Ou também de que serve a tolerância se apenas é uma ferramenta de desresponsabilização (nossa e dos outros) sem autoconhecimento e mudança?


Estes objetivos são frequentemente (re)lembrados durante o processo terapêutico. Sobretudo porque o processo terapêutico é difícil. A jornada pela mudança, pelo autoconhecimento, pela compreensão e tolerância, pode ser em momentos difícil ou doloroso. A maior parte das vezes o final da consulta é um momento prazeroso, onde espelhámos o sofrimento, demos voz às emoções e planeámos a mudança, mas a verdade é que acredito que por vezes, em frações de segundo passe pela cabeça o pensamento "não me apetece nada ir...vou ter que falar "daquilo"...era mais fácil deixar tudo como antes".

É portanto de extrema importância apoiar e validar quem está num processo terapêutico.

Enquanto psicólogo considero fundamental estar ao lado dos meus pacientes enquanto atravessamos este processo, relembrando os objetivos terapêuticos, relembrando também qual o foco da terapia: o bem-estar psicológico. Não é, nem deve ser, uma jornada pela culpabilização, moralização ou julgamento. Tolerância, autoconhecimento, compreensão. Repito.

Aqui entra o grande pilar do processo terapêutico. A rede de apoio. No titulo refiro por simplicidade "família", mas a rede de apoio relacional pode ser algo diferente. São as pessoas que emocionalmente nos fazem ressoar. As que mais sentem connosco.


O processo terapêutico é algo individual. Sem dúvida. A confidencialidade e confiança sem deveres éticos. Justamente por isso, o papel da família será sempre algo mediado e debatido por quem está em processo terapêutico, não por pessoas externas.

Contudo, acredito que nenhuma pessoa é uma ilha, ninguém pertence exclusivamente a si mesmo, e vivemos num mar relacional. Se nos deixamos molhar nesse mar é outra questão, mas tudo é relação. Nesse sentido, por vezes, a família, o circulo-relacional próximo pode ter um papel crucial no sucesso terapêutico. Para começar porque estando envolvida, a família consegue compreender as mudanças que vai ver, mudanças ao nível comportamental e emocional, que nem sempre serão compreendidas ou entendidas como benéficas.

Porque por vezes a esposa "tímida" está mais "respondona e refilona", não, é apenas mais assertiva do que era. Ou o filho "mal-educado" está "mais fechado e calado", não, está apenas a aprender a modelar as emoções. A verdade é que às vezes nos habituámos tanto a lidar com aquela pessoa sendo daquela maneira que a mudança causa estranheza, porque o que é familiar, por muito que seja prejudicial, é confortável voltar ao "tudo como estava antes".


Também há claro situações em que o nosso circulo próximo tem ganhos diretos, porque afinal, por exemplo, a assertividade é algo desejável certo?....mas deixa de o ser quando implica que afinal há alguém que nos faz frente e responde de volta ao invés de se calar, isto a titulo de exemplo.

Outras vezes há em que comportamentos prejudiciais são alimentados pelas nossas relações mais próximas. A maior parte das vezes com a melhor das intenções! Proteger, mas ocultar. Resolver, mas desresponsabilizar. Tudo para "proteger" a pessoa...mas reforçando (premiando) o comportamento problemático. Por vezes é importante não proteger aquela pessoa, por paradoxal que pareça.


Amar incondicionalmente, mas não amparar as quedas.

Reconhecer falhas e dificuldade, mas com compreensão.


O resultado final parece-me positivo, porque podendo ser incluída, a família poderá ser um espelho de tolerância, compreensão que estimula a mudança quando por vezes estas são difíceis de puxar daquele poço fundo que por vezes temos dentro de nós.

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