Insónia - esse pesadelo acordado



Acredito que o titulo do texto de hoje provoque desde já uma sensação de desconforto em algumas pessoas que o vão ler. Esta é afinal uma das características mais perversas da insónia, a maneira como nos reactiva memórias e sensações de uma situação que para muitos de nós é familiar (se não mesmo recorrente).

Mais do que apenas algo que acontece, uma azar qualquer, como quem bate com um pé num móvel e naquele dia ficamos a coxear, a insónia sente-se como algo que está sempre no fundo da mente, à espera de ser activada...como se o dito móvel andasse sorrateiramente atrás de nós na expectativa de nos apanhar desprevenidos.

Portanto a maioria das pessoas lida com a insónia quase como um pensamento mágico: "não penses na insónia que ela não vem".

Mas a insónia advém de um esquema aprendido no acto do deitar. No acto de ir para a cama para dormir. É quase como alguém nos dizer "não penses em elefantes"...vamos pensar nos elefantes.

Facilmente nos encontramos com diversas pessoas que ao longo da sua vida afirmam terem vivido patologias do sono explicadas, ou, com base em factores psicológicos. Estima-se que uma em cada três pessoas terá uma perturbação do sono em algum momento da sua vida, e com efeito, uma patologia do sono é facilmente desencadeada em qualquer indivíduo, bastando para o efeito, a titulo de exemplo, simples factores físicos (abuso e dependência de café) ou situacionais (acontecimentos indutores de stress) a que todos nós estamos inevitavelmente sujeitos ao longo da vida, e, que contêm a potencialidade de afectar a duração e qualidade do sono.

Contudo, é importante entender o sono como um fenómeno variável entre cada pessoa como também ao longo da vida. Como nem tudo é psicológico, diversos factores de ordem biológica podem explicar padrões de sono considerado "anormal", motivo pelo qual um diagnóstico correcto é imprescindível.

Ultimamente é fácil menosprezar a insónia com "a situação pela qual estamos a passar". "É o stress". Stress é aquela coisa que abrange tudo mas na verdade pouco diz. O que é este "stress" que não nos deixa dormir? É medo? Receio? Com o que? Sobre que situação? É excessiva estimulação mental pelos padrões laborais alterados? Deito-me a pensar no trabalho que parei à menos de 5 minutos atrás? A ponderar na reunião de amanhã? É pela pouca actividade física, porque trabalho e vivo o dia em casa? Porque os ginásios estão fechados? É pela reclusão relacional porque convivo e vivo menos com e para os outros? Podia ficar o dia inteiro a dissecar o "stress do que estamos a passar", mas como podemos ver existem inúmeras situações psico-emocionais que podem desencadear padrões de sono desadequados.

As insónias constituem perturbações do inicio e manutenção do sono, numa queixa na dificuldade de efectuar estas etapas do sono ou queixas de sono podendo estar associada a perturbações diurnas da falta de sono, provocando sofrimento e mal-estar, dificuldades no funcionamento social ou outra área importante.

De modo inverso a pessoa pode adormecer mais facilmente quando não é esse o seu objectivo (a ler, a conduzir, a ver televisão, etc), pelo que podem adoptar hábitos de sono desadaptados durante a evolução da perturbação, levando a uma redução do bem-estar durante o dia resultando em deterioração do humor, redução da atenção e concentração, hiperestesia sensorial (aos ruídos), bem como predisposição para acidentes, principalmente em insónias de longa duração. Com efeito factores associados a insónias podem incluir preocupações ansiosas com a saúde em geral, depressão, preocupação excessiva com o sono e altos défices funcionais com menos produtividade e aumento do consumo de cuidados de saúde. As insónias tendo múltiplas causas tendem a ser hipervalorizadas subjectivamente determinando facilmente comportamentos de auto-medicação e abuso de substâncias: hipnóticos ou alcool, ansioliticos para combater a ansiedade e estimulantes para combater a fadiga

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As insónias têm na sua generalidade um inicio relativamente súbito durante um período excepcional na vida da pessoa, contudo por vezes a insónia persiste para além do período stressante e da resolução dos factores iniciais principalmente devido ao referido efeito de condicionamento, associações negativas ao sono, etc. Relativamente à evolução da patologia da insónia caracterizam-se três tipos:


· Insónias iniciais ou de adormecimento – Constituem o tipo de insónias mais frequentes sendo as que mais facilmente induzem o consumo de substâncias como hipnóticos por auto-medicação para resolver a situação que surge como nova ou passageira. Consistem no prolongamento do período necessário para adormecer e podem advir de factores ambientais (calor, ruídos, dores de decúbito levando ao condicionamento do sono) e principalmente ansiedade patológica.

· Insónias intercalares – Constituem em múltiplos despertares durante o período de sono com presença de dificuldade em retomar o sono. Associam-se frequentemente a ideias ansiosas (o individuo levanta-se frequentemente durante a noite para verificar os objectos da sua ansiedade, por exemplo, verificar repetidas vezes o fogão, o trinco da porta, de modo ritualizado e sistemático).

· Insónias terminais – Consistem em despertares excessivamente precoces frequentemente acompanhados de ruminações depressivas intensas.

A insónia está associada a um aumento da activação fisiológica, psicológica ou emocional levando a condicionamentos negativos face ao sono, ou seja, a preocupação acentuada com o sofrimento da incapacidade para dormir pode desenvolver um ciclo-vicioso, onde quanto mais o sujeito se esforça para adormecer mais frustração e mal-estar sente e menos capaz se torna de adormecer; no princípio do condicionamento, isto reflecte-se que um sujeito que se deita numa cama onde passou diversas noites sem dormir activa frustração e sofrimento condicionado.


Posto isto, o enfoque terapêutico de casos de insónia passa frequentemente por reaprender os condicionamentos associados ao sono e ao acto de adormecer.


Ou seja, a insónia cria o condicionamento de que o acto de nos deitarmos para adormecer em vez de ser agradável, ou simplesmente necessário, é indutor de sofrimento.

A tão desejada cama ao fim de um dia de cansaço torna-se um objecto de aversão. "Lá vou eu para a luta de adormecer" não devia de ser um pensamento associado ao deitar, mas na insónia é porque foi esse o esquema criado.


O acompanhamento psicológico terá que portanto focar-se neste esquema.

Inicialmente retirando o setting que aprendemos como sendo ansiogénico (o acto de nos deitarmos naquela cama, naquele quarto), reformulando as crenças relativamente à insónia (como crenças de que não dormir é algo catastrófico e com consequências fatais e destrutivas), introduzindo pensamentos e esquemas realistas que mitiguem a ansiedade da insónia (aceitando a insónia, formulando soluções para o cansaço do dia seguinte, etc.).


Posteriormente, entender as causas deste incomodo transtorno de estimação.

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