Infância como sinónimo de felicidade?

Quando pensamos na palavra infância, quais são as palavras que surgem na nossa mente? Alegria, diversão, inocência, felicidade…? Mas serão as crianças assim tão imunes ao sofrimento? Parece que a tristeza e depressão não são compatíveis com esta fase da vida. Mas a verdade é que também as crianças podem sofrer de perturbações psicológicas como a depressão, mesmo que as manifestações sejam um pouco diferentes das dos adultos.

Não há uma idade mínima para se ter depressão, contudo, é uma ideia relativamente recente que apenas em 1980 é que começou a ser explorada. Neste momento, sabemos que 1 a 2% das crianças e 4 a 8% dos adolescentes têm depressão. Este aumento é explicado pelo facto de as crianças serem tendencialmente mais protegidas e por outro lado, a adolescência apresentar mais desafios, mudanças, responsabilidades…


A depressão é mais do que uma mera tristeza, é uma perturbação psiquiátrica grave, e nas crianças pode demonstrar-se das mais variadas formas, variando bastante com idade e por consequência, pela maturidade da mesma a nível linguístico, cognitivo e emocional. Quanto mais crescem, mais se desenvolvem e com mais facilidade se exprimem. Logo, é natural que em fases mais precoces os sintomas não estejam tão relacionados com a tristeza, mas mais com sintomas comportamentais e físicos. A depressão pode não se revelar apenas através da tristeza, mas também do aumento da agitação, irritabilidade, dos comportamentos de oposição, queixas somáticas (dores de barriga, vómitos, alergias…), sendo comum a presença de apatia, choro frequente, tendência ao isolamento e alterações do apetite e sono.


Tal como nos adultos, pode iniciar-se após algum evento traumático, como o divórcio dos pais, mortes, abandono... Mas por vezes é despoletado por um conjunto de eventos, não sendo possível identificar um único acontecimento. A família tem influência no desenvolvimento desta perturbação por 2 motivos principais: a própria genética e o ambiente familiar vivido. Ambientes de abuso, negligência, agressividade, exigência extrema, falta de carinho e afeto, são os principais propulsores da depressão.

Contudo, as próprias características da criança, ou seja, o seu temperamento, têm um papel determinante. As características que mais frequentemente se encontram em crianças com depressão dizem respeito à dificuldade e relutância em experimentar novas situações e a sensibilidade a acontecimentos/situações negativas.


Dependendo das idades, os sintomas depressivos manifestam-se de diferentes formas. Em crianças mais pequenas estão presentes as alterações comportamentais, queixas somáticas (dores de barriga..), cansaço, birras, falta de vontade de brincar, agressividade, muitas vezes difíceis de perceber como depressão. Ao ponto que, em idade escolar os principais sinais estão relacionados com o rendimento académico e relações com os colegas. Existe uma maior tendência para o isolamento e se tornarem tendencialmente mais agressivas ou desafiadoras. Na adolescência, a tónica está nos sentimentos de inferioridade, culpa, inutilidade e falta de capacidades. Surge a tríade cognitiva, marcada por pensamentos negativos acerca de si próprio, os outros e o futuro e o aumento dos comportamentos de risco (uso de drogas e álcool, comportamentos sexuais desprotegidos, desafio das regras e leis…). Existe nesta faixa etária uma maior tendência ao suicídio do que nas anteriores.


Então, quando é que a tristeza se torna um problema? Como conseguimos nós distinguir tristeza de depressão? No fundo, a tristeza tem um papel tão benéfico como a felicidade ou alegria. Ela permite-nos, através do desconforto, procurar novas soluções, alterando o nosso foco e concentração para a resolução do problema. Torna-se disfuncional e negativa quando perde essa importante função. Quando esses sentimentos não nos permitem evoluir, quando são demasiado fortes, persistentes e quando são acompanhados de outros sintomas, diminuindo a nossa capacidade de adaptação aos problemas em vez de a aumentar.


Sara Cruz

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