Há medos e medos!

Medo do escuro, medo de monstros, medo de ficar sozinho... Mas porque é que isto acontece? É normal acontecer?


O medo é uma das emoções básicas que todos os seres humanos experimentam. Esta emoção tem um grande valor no que diz respeito à sobrevivência, pois prepara o corpo para enfrentar potenciais perigos. A vivência dessa emoção provoca uma grande ativação fisiológica, tanto em adultos como crianças, preparando o corpo para agir em caso de perceção de perigo, real ou imaginado. A esse processo dá-se o nome de “fuga ou luta”. Durante este processo são libertadas hormonas que levam a alterações corporais preparando-nos para a ação. Algumas dessas alterações são: alargamento dos brônquios para aumentar a passagem de ar; aumento da frequência cardíaca para o sangue atingir os órgãos prioritários mais rapidamente; aumento da sudação para manter uma temperatura corporal menor… Esta emoção faz parte do nosso ADN, e é experimentada por todos os seres humanos em todas as faixas etárias. Contudo, ao longo do desenvolvimento é possível perceber que existem medos normativos que correspondem à fase desenvolvimental em que a criança/jovem se encontra. Ter esta noção pode ser um grande benefício para poder perceber mais facilmente se o medo de qualquer criança é adaptativo.



→ 0-6 meses: A tarefa desenvolvimental associada é o sentar-se. Nesta fase a criança encontra-se a desenvolver o seu equilíbrio sendo que estes medo apoiam de certa forma a aquisição desta competência.

  • Medo de barulhos fortes;

  • Medo de cair.


→ 7-12 meses: Tal como o medo de cair, o medo das alturas está relacionado com a aquisição da locomoção.

  • Medo de alturas;

  • Objetos que aparecem repentinamente;

  • Estranhos.


→ 1 ano: Nesta fase medo de estranhos mantém-se, contudo desenvolve-se o medo da separação dos pais.

  • Separação dos pais;

  • Estranhos;

  • Ferir-se/Feridas.


→ 2 anos: As crianças com 2 anos estão muito mais atentas ao que se passa à sua volta. Por outro lado, ao iniciarem a sua locomoção pelo próprio pé, todos os estímulos parecem muito maiores do que quando andavam ao colo de um adulto.

  • Separação dos pais

  • Estímulos barulhentos: trovoada, alarmes, aspiradores…;

  • Escuro

  • Objetos grandes: camiões, maquinaria pesada…


→ 3/4 anos: Há uma grande dificuldade em lidar com o desconhecido nesta fase, por isso é necessário ter em atenção as festas temáticas, como o Carnaval e o Natal. Estas podem envolver uma forte componente emocional para as crianças nesta faixa etária.

Há também uma maior ativação no que diz respeito aos barulhos noturnos, havendo uma maior ocorrência de pesadelos a partir dos 4 anos, até aos 6 anos.

  • Máscaras;

  • Escuro;

  • Animais;

  • Separação dos pais;

  • Barulhos noturnos.


→ 5 anos: Os medos nestas idades estão muitas vezes relacionados com a mudança para o 1º ciclo, onde passarão de ser as crianças mais velhas da escola para ser as mais novas, sendo recorrente o medo relacionado com a escola, colegas e professores.

  • Animais;

  • Pessoas “más”;

  • Escuro;

  • Separação dos pais;

  • Ofensas físicas.


→ 6 anos: Como nesta fase são recorrentes os pesadelos, os medos tendem a estar interligados com estes e com a ocorrência de novos pesadelos e do que poderá haver no escuro: interferindo com a capacidade de dormir sozinho.

  • Seres sobrenaturais: fantasmas, espíritos e bruxas;

  • Ofensas corporais;

  • Trovões e relâmpagos e escuro;

  • Dormir ou ficar sozinho;

  • Separação dos pais.


→ 7/8 anos: Nesta faixa etária é ainda mais importante controlar e limitar o acesso à televisão sem supervisão, assim como ao jogos e informação online que acedem.

  • Seres sobrenaturais;

  • Escuro;

  • Acontecimentos divulgados nos media: guerras, raptos, assassinatos...;

  • Ficar sozinho;

  • Ofensas corporais.


→ 9/12 anos: Numa altura em que acontecem muitas mudanças corporais, a aparência e os aspetos sociais são cada vez mais relevantes. No entanto, os medos relacionados com a escola são também bastante comuns, por isso mesmo é importante estar atento/a à presença de níveis de ansiedade e stress elevados que possam prejudicar o bom funcionamento do jovem.

  • Avaliações escolares;

  • Realização escolar;

  • Ofensas corporais;

  • Aparência física;

  • Trovões e relâmpagos;

  • Morte;

  • Escuro.


O papel dos pais, enquanto pessoas importantes para as crianças e jovens, e sendo eles que lidam com os seus medos, vão ter um grande influência na evolução dos mesmos, devendo assumir uma postura de compreensão e segurança, de forma a fornecer o conforto que estes necessitam para lidar com as suas emoções.

Faço também um alerta final: cuidado com a superproteção. Ao lidar com estas questões de forma ansiosa, mesmo quando se tratam de perigos reais, faz com que as crianças sejam privadas de situações potenciadoras de aprendizagem e crescimento, dificultando a aquisição de competências para lidar com situações futuras.

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