Gravidez na adolescência

Atualizado: Mar 13

A adolescência por si só é uma fase de mudança e instabilidade. Durante o crescimento esperam-se uma série de mudanças biológicas, psicológicas, fisiológicas, cognitivas, sociais…sendo elas mais ou menos universais, variando com o contexto de cada um. É suposto esta fase de vida ser pautada pela reorganização, reestruturação e crescimento pessoal, onde estas alterações promovem, por um lado, a independência, autonomia e individualidade, por outro, o aumento da intimidade e proximidade com outros. Na adolescência há o surgimento de novos papeis, os jovens escolhem e definem com mais especificidade o seu caminho ao longo deste período.

A gravidez, normalmente inesperada, torna-se um acontecimento marcante para estes jovens fazendo com que tenham de lidar com um conjunto de sentimentos inesperados e intensos onde as preocupações e medo têm um destaque central. Segundo o relatório do INE (2018), apesar da idade média de nascimento do 1º filho em Portugal ser os 29,8 anos, e da taxa de natalidade na adolescência ter vindo a decrescer ano após ano, as estatísticas mostram-nos que 7,48 adolescentes em cada mil, entre os 15 e 19 anos, tiveram um filho em 2018. O que não deixa de ser preocupante.


A gravidez na adolescência vem acompanhada de uma série de dificuldades. Esta surge repentinamente criando uma descontinuidade no crescimento e no desenvolvimento. Envolve uma mudança drástica na vida destes jovens que não era inicialmente expectável dando origem a uma rutura na sequência de acontecimentos previstos. Existem, então, uma série de fatores protetores e fatores de risco que vão ajudar a definir esta etapa. Estes fatores, sejam eles de risco ou protetores poderão ser pessoais/individuais, familiares ou contextuais.


Alguns dos fatores de risco que podemos identificar dizem respeito às condições financeiras, à existência de conflitos familiares antecedentes à gravidez, fraca rede social, desinteresse escolar, fraca projeção no futuro e vulnerabilidade pessoal. Ou seja, fatores que aumentam o impacto da situação geradora de stress. Esta última é uma das características pessoais mais relevantes e diz respeito à predisposição a ter uma reação negativa perante as situações de stress, ou seja, dificuldade de se adaptar às novas condições geradas por um acontecimento adverso.


Os fatores protetores, ao contrário destes últimos, facilitam as respostas positivas do individuo, reduzem o impacto no bem-estar e saúde mental. Alguns destes fatores associados à gravidez na adolescência que se destacam são: um percurso escolar satisfatório, boas relações com professores, colegas e com a família em geral, com destaque dos pais.

A nível pessoal, destaca-se a resiliência. A resiliência é um fator que explica muitas vezes o porquê de algumas pessoas “vencerem” e outras “falharem” perante as dificuldades. Refere-se à capacidade de adaptação a uma situação negativa e adversa, levando à superação dessas mesmas dificuldades. Está relacionada com o conceito de coping (capacidade de lidar com…). Envolve a capacidade de se projetar no futuro apesar das condições difíceis e prever uma continuidade.

É comum que a grande maioria das gravidezes não seja planeada e que os jovens tenham de lidar com os sentimentos negativos que surgem, contudo, a resiliência não impede que estes sentimentos surjam, mas determina como os jovens lidam com eles, assim como com as outras dificuldades envolvidas.


Apesar das competências pessoais, as relações familiares e conjugais são determinantes. É uma fase em que a empatia, o apoio e o respeito são fundamentais. Os pais dos jovens adolescentes têm aqui um papel crucial de amparo e apoio mesmo que para eles seja uma notícia igualmente impactante. Contudo, apesar do choque normal dessa notícia, é importante para estes jovens essa compreensão, sendo provavelmente o momento da sua vida que mais precisarão desse mesmo apoio.


Se fores uma adolescente grávida:

1- Lidar com a notícia: O primeiro impacto é realmente avassalador, dedica algum tempo para lidares com esta situação e refletir sobre os próximos passos a dar;


2- Contar a pessoas de confiança: Antes de falares com os teus pais pode ser importante falares com outras pessoas de confiança, da família ou não, que te possam ajudar;


3- Contar aos pais: Como já falamos, o apoio parental a nível emocional e também financeiro vai ajudar-te a lidar com esta nova realidade. Contudo, lembra-te que para eles também será um choque e é possível que não reajam da melhor maneira possível, prepara-te para possíveis reações negativas;


4- Procurar ajuda médica e psicológica: Seja qual for a decisão que decidas tomar, se decidires avançar ou interromper a gravidez, é natural que procures ajuda médica. Mas, para além da importância de cuidar da tua saúde física existe a necessidade de cuidares da tua saúde mental. Para além disso, um psicólogo pode ajudar-te a tomar decisões e avaliar as tuas opções.


Se é mãe ou pai de adolescentes nesta situação:

1- Apoie neste momento difícil: Tente por de lado os seus sentimentos, sejam eles quais forem e dê prioridade às necessidades emocionais destes jovens;


2- Não imponha a sua opinião: Pergunte-lhes qual é o desejo deles e explore as opções;


3- Caso decidam seguir com a gravidez e ficar com a criança: Ensine as competências básicas para o fazerem e prepare-os para as mudanças;


4- Tente não interferir demasiado com as decisões relativas ao futuro bebé.


São muitas as dificuldades esperadas: sentimentos, críticas, julgamento, afastamento de amigos... O apoio dos pais poderá fazer a diferença na forma com os jovens lidarão com a situação. Uma gravidez indesejada não tem de ser necessariamente algo negativo na vida de uma pessoa, por mais obstáculos e mudanças que envolva.


Sara Cruz

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