"Eu escolho-te por minha esposa... - Eu escolho-te por meu esposo"

Atualizado: 17 de Abr de 2018


“Não se esqueça – está casado está casado tem que ficar com a sua mulher!”

“Tenho não, estou porque quero.”

“Ah mas isto é assim? Porque quer não”

“Porque quero sim, não acha que tem muito mais valor eu querer?”.


Esta conversa foi feita em tom jovial, uma brincadeira, mas que na verdade esconde um pressuposto: há uma imposição. Não é uma relação. A partir de um determinado momento deixou de ser uma relação entre duas pessoas individuais que se maravilharam com as características únicas de cada um e passou a ser uma formalidade institucionalizada.


Mas bem, qual é o problema de ser uma formalidade institucionalizada? Desde de que funcione certo?


Como todos os atalhos na vida, o problema vem no longo prazo.

No longo prazo, o “porque estamos casados”, “porque há filhos”, “porque há casas”, “porque há…” vai deixando marcas profundas.


Justamente porque um casal não é uma imposição contratual, com colegas de trabalho ou operadoras de telefone, há situações, tanto positivas como negativas, que têm que ser vividas e resolvidas pelo afecto e pelo amor e não como a quebra da clausula nº53.


A consequência é a destruição da auto-estima.


Imaginem, num exemplo quase caricaturesco e ridículo, que por magia são obrigados a viver com alguém que é também obrigado a suportar os vossos defeitos, os vossos problemas, não porque quer, não porque tem amor, mas porque é obrigatório - é para obedecer, não para sentir.


O que iriam pensar sobre o amor que há da parte daquela pessoa?

Certamente que não existe. É porque tem que ser. Não há nada de especial em nenhum dos dois, é apenas assim.


Frequentemente encontro por detrás da baixa auto-estima esta crença. Nunca dita abertamente, mas lentamente ao longo do tempo a crescer: a crença de que não se tem valor.


Quando acreditamos que o nosso ou a nossa parceira partilha a vida connosco por obrigações começamos a acreditar que não temos valor suficiente, não somos pessoas suficientemente boas, para sermos merecedores de amor voluntário.

Portanto em terapia é frequente, e com bastante eficácia, trazer à superfície a questão de que na verdade, num casal, ninguém precisa do outro.


É um pensamento assustador. “Se não precisa….então para que raio estamos juntos?”.


Porque quer!


Quando olhamos para a outra pessoa, e temos em nós a noção de que é uma escolha, que aquela pessoa, nos escolheu. Todos os dias nos escolhe. Isto é extremamente valorizador! Do mesmo modo, olhamos para a outra pessoa, e sem ressentimentos vemos que é também uma escolha nossa. É uma pessoa única com quem nos relacionamos de um modo único e exclusivo. Poucas abordagens funcionam tão bem em terapias de casal como o momento em que o casal olha para si mesmo, e não o vê como uma rifa que lhe calhou na lotaria da vida e do “preciso de uma segunda fonte de rendimento para o empréstimo da casa” mas como a valorização da individualidade do outro.


E espanto, quando vemos a vida em casal, como uma escolha, como uma valorização e amor porque quem somos e do único que temos, recuperamos a auto-estima. E com a auto-estima recuperada, o amor-próprio, estamos disponíveis para amar os outros.

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