Estes Dias do Agora

Atualizado: Abr 3


Estes dias que agora vivemos despertam e ampliam temas que estão omnipresentes na consciência humana, mas que são normalmente diluídos ou suprimidos pelo agir automático e repetido do quotidiano.

Enquanto humanos, vivemos o paradoxo de saber que agimos sobre as nossas vidas ao introduzir nelas uma certa noção de previsibilidade, embora saibamos que a realidade é, por definição, imprevisível. Erguemos a nossa existência nessa base, isto é, procuramos equilíbrio, controlo, certeza e simplicidade, sabendo que viver é lidar permanentemente com o desequilíbrio, com a ausência de controlo, com a incerteza e com a complexidade. A partir do momento em que apreendemos este paradoxo ou em que desenvolvemos essa capacidade de nos questionarmos sobre este saber de nós e do mundo, sobrevivemos enquanto humanos num movimento perpétuo que abre ou fecha, filtra ou revela, ofusca ou destrói a constatação desta inevitabilidade do viver, dos seus processos e dos seus ciclos.

A grande diferença dos seres humanos em relação aos outros seres vivos é que organizamos a percepção de nós mesmos e da realidade que nos envolve a partir da noção de finitude e é essa finitude que nos permite aceder à categoria tempo. A partir dela, organizamos as nossas experiências em tempo passado (o que fomos), tempo presente (que é e se esvai no agora) e tempo futuro (algo aberto, algo que não se conhece, mas que se constrói a partir do que fomos antes e do que somos agora). É nesta organização temporal que encontramos uma ideia de continuidade, de coesão, de consistência, de identidade: Somos o que somos, o que fomos e aquilo que projectamos ser, mantendo ou transformando a base que nos é dada, assumindo que ela nos dá uma percepção relativamente estável sobre a forma como nos vemos a nós próprios, aos outros e ao mundo.

Para além da estabilidade relativa que nos dá a categoria tempo, somos também seres de espaços. As referências dos locais com que estabelecemos familiaridade definem a memória do que fomos, do que somos e do que poderemos ser. Vivemos a partir de referências espaciais estáveis (locais, paisagens, casas), espaços de segurança e de conforto, de ligação e de afecto, de rotina e de trabalho, de lazer e prazer, de curiosidade e exploração, mas também de referências que podem gerar desconforto, alerta, medo e insegurança.

Somos seres de tempo e espaço, seres que agarram essas categorias para desenvolver narrativas coerentes e coesas sobre o que é viver, para organizar a realidade, para diluir a consciência da imprevisibilidade e da incerteza. Deste modo, aplacamos a ansiedade que advém da noção clara de que a linha que nos separa do ser e do deixar de ser, do viver e do morrer é ténue, fugidia, quebradiça.

É precisamente por isto e pela necessidade de mantermos a coesão e o equilíbrio que, embora sabendo da finitude, escolhemos não olhar para ela de forma permanente. Tal levar-nos-ia a paralisar ou colapsar, impossibilitaria a vivência das pequenas coisas, do usufruir do mundo, de estabelecer ligações com os outros. Como seria possível amar, sonhar, evoluir se existisse uma consciência total, plena, obsessiva de que a vida é efémera, quebradiça, imcompreensível?


Assim, escolhemos viver com um filtro ou com um véu que, de quando em quando, espreitamos e nos revela este facto incontornável. É através dele, da consciência da nossa fragilidade e da nossa incerteza que impusionamos a mudança, que nos tornamos autores das nossas narrativas, das nossas experiências, das nossas vidas, que assumimos a nossa condição de seres livres.

Estes dias que agora vivemos lançam-nos aos olhos, de forma extrema, uma incerteza e uma insegurança a que não podemos fugir, uma realidade que nos quebra a vida tal como a conhecíamos, algo que estava protegido pelos elementos automáticos e quotidianos. Surge uma ampliação de algo que sempre esteve presente, mas que o filtro ou o véu da sobrevivência foi protegendo, algo que coloca em causa de forma absoluta o modo como sempre vivemos.


A sensação de estranheza destes dias assume contornos mais radicais, pois para além de nos colocar face à incerteza e à ausência de controlo sobre as nossas vidas, suspende as grandes categorias que organizam o ser humano: tempo e espaço.

O tempo é vivido em dias que suspendem o presente, os seus hábitos, as suas rotinas, mas também o futuro (quanto tempo durará esta imprivisibilidade? Quão incertos serão os dias, semanas ou meses?) e mantém a memória de um passado (mais ou menos distante) em que tudo era diferente. Também o espaço se suspende na impossibilidade de nos movermos para os locais familiares, para as referências estáveis e previsíveis que distinguem espaços de trabalho, de lazer, de partilha, de solidão, espaços individuais ou colectivos, espaços fechados ou abertos.

Em todos estes dias do agora, em que todas estas coisas são agidas, pensadas, sentidas e vividas, continuamos a ser irremediável e tenazmente humanos. Sobrevivemos a tudo isto, a toda esta dissonância, criamos novos tempos e novos espaços, reinventamos a vida, reinventamos as ligações, o estar perto estando longe, o estar próximo estando afastado, o estar só não (nunca) o estando.

Vamos também desenvolvendo a capacidade de criar, de inventar, de agir com imaginação. Fazemos uso disso para romper esta suspensão de tempo e de espaço, para transformar tudo, para manter a consciência do que somos, a coesão da memória, a abertura de um futuro… Espreitamos a realidade pelo véu (notícias e notícias em propagação) e escondemo-nos dela (manter hábitos, agarrar as pequenas coisas, ter distracções), introduzimos controlo e certeza nos nossos dias, cuidamos dos laços, cuidamos com amor e com solidariedade.

Quando fazemos tudo isto, o tempo e o espaço, mesmo que se saiba ou não se saiba de todo, abrem para um outro desconhecido, abrem para algo que nos dá esperança. Quando fazemos tudo isto, inventamos a vida, sobrevivemos com o que os humanos sempre souberam e fizeram (ou escolheram fazer) para derrotar a finitude, a incerteza e o medo que ela provoca: agarramos as pequenas coisas; seguramos os laços; tocamos o que é belo; triunfamos nos dias, em todos os dias, em dias como os dias de agora; triunfamos no viver com a imaginação ao nosso lado.

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