Doença mental, estigma e o papel dos media.




Na semana em que se assinala o Dia Mundial da Pessoa com Esquizofrenia (23 de Maio), vale lembrar que esta doença psiquiátrica cursa com a perda de contato com a realidade, em que o impacto no normal funcionamento social, laboral e interpessoal do doente fica significativamente comprometido. Não sendo o objetivo deste texto esmiuçar a sintomatologia, ou a descrição da clínica da doença, focaremos a atenção sobre a forma como os media podem impactar a visão do público em geral relativamente a esta doença, mas também à patologia mental na sua globalidade, contribuindo e combatendo simultaneamente o estigma associado.

De facto, os media (onde se inclui a media social, também designada de redes sociais, os programas televisivos, a indústria cinematográfica, os artigos em jornais e revistas etc.) podem contribuir de 2 diferentes formas:


I. Influência negativa – estigmatizante.

II. Influência positiva - informativa e psicoeducativa.


A influência negativa está associada a descrições de traços gerais que são inadequados, desagradáveis e perigosos relativamente a pessoas com doença mental, especialmente a doenças como a Esquizofrenia. Representações frequentes de associação frequente entre Esquizofrenia e homicídio (por ex. a caraterização de personagens cinematográficas descritas como “serial killers” devido “à sua esquizofrenia”), de outros comportamentos violentos, bem como a descrição desta população como reduzida a incapacidade de reabilitação e integração social, o que não é representativo da realidade, contribuem para a perpetuação de crenças negativas que afetam a auto-estima dos doentes, reforçam o processo de auto-estigmatização dos próprios, dificultam o acesso dos doentes ao mercado de trabalho, que acresce ao isolamento social e a estes serem alvo de atitudes negativas e discriminatórias no seu dia-a-dia.

A influência positiva associada aos media encontra-se naturalmente associada ao seu potencial de disseminação rápida, e abrangente, de informação relativa a saúde mental. Para este efeito, é importante que a informação transmitida decorra de forma atualizada e rigorosa, partindo de fontes científicas fidedignas e de opiniões de peritos com formação específica na área de intervenção. Neste caso, é possível facilitar a educação de doentes, familiares e amigos para a doença mental, adquirindo conhecimento sobre as suas causas, suas implicações na vida do doente e tratamentos disponíveis, tornando todos os envolvidos aliados num processo psicoterapêutico e psicofarmacológico.

Em conclusão, se enquanto ferramenta os media podem assim ter fins completamente distintos, é o seu uso consciencioso e rigoroso que o transforma numa uma mais-valia; em prol de um presente, e futuro, que respeite e valorize as doenças mentais com a mesma dignidade e seriedade que as demais doenças ditas “físicas” recebem.

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