Direito à desconexão...fará sentido?





Uma percentagem significativa das pessoas que recebo em consulta refere problemas no trabalho, nomeadamente dificuldade em sair a horas e trabalho para fazer em casa. Também não é raro estar em consulta e a pessoa receber chamadas do trabalho, o que demonstra de forma clara a dificuldade em “desligar” mesmo quando estamos fora do trabalho.


As vantagens em ter dois números, dependendo do tipo de função, passam por conseguir fazer uma separação mais eficaz entre os dois mundos, o pessoal e o profissional. Isto garante-nos que podemos ir de fim de semana e, caso queiramos, possamos desligar o telefone profissional, mantendo apenas o contacto pessoal para questões pessoais.


É muito difícil estabelecer limites, tanto para quem trabalha por conta de outrem como quem trabalha por conta própria. Mas consegue-se. Precisamos, contudo, ser assertivos e dizer “não”. É uma imposição de limites que começa em nós mesmos. Numa fase inicial, certamente que patrões e clientes estranharão, mas com o tempo, habituar-se-ão. Passa por nós explicar as nossas motivações.


Há profissões, onde incluo a minha, onde estes limites têm que estar bem claros. Não me mantenho incontactável para os meus clientes, mas eles sabem em que tipo de circunstâncias me podem contactar.


É importante estabelecer “um meio termo”, onde possamos permitir algum nível de contacto sem que isso seja uma constante. Recordemo-nos que, só descansando convenientemente conseguiremos prestar um bom serviço nos nossos locais de trabalho.

Talvez faça sentido falar-se em direito à desconexão. Mas, o problema, muitas vezes, não passa pelo acesso ao email mas sim pela obrigatoriedade à resposta que muitas empresas e clientes impõem, mesmo fora do horário de serviço. Por isso, o direito à desconexão deveria ser uma realidade. Se por um lado, o email no telemóvel nos ajuda em muita coisa, por outro lado faz-nos estar sempre ligados e disponíveis.


Mais do que ter dois números de telefone ou o email desconectado, é importante sermos assertivos e dizermos “não”. É importante impor limites, mesmo no contexto profissional. Só assim se conseguirá uma mudança nos hábitos profissionais. É preciso reivindicar o direito à família, ao lazer, à vida pessoal. Não somos máquinas de produtividade inesgotável. Friso que, só a conciliação eficaz da vida pessoal e profissional nos permite sermos melhores naquilo que fazermos e estarmos mais disponíveis para o trabalho, no horário em que deve ser.

Dando o meu exemplo, reduzi a minha agenda de consultas, para assim dar menos consultas e estar melhor, mais profissional e mais disponível para aqueles que atendo. O meu descanso é fundamental à qualidade do meu trabalho.


A consequência mais evidente de não desligarmos do trabalho são os quadros de ansiedade e burnout ou síndrome de exaustão profissional. São frequentes também os problemas familiares e até o divórcio devido a uma grande indisponibilidade para a vida familiar devido a um grande foco na vida profissional.


No meu caso?

Tenho apenas um contacto, por opção. Não tenho muita paciência para trazer comigo dois telemóveis ou ter que gerir dois números. Dou o meu contacto a todos os meus clientes, pois acho que eles devem ter uma forma de me contactar, pois muitas vezes, eu sou o seu único suporte. Contudo, eles sabem que apenas em situações urgentes me devem ligar. Aconselho em todas as outras situações a que me deixem mensagem ou email e, assim que possível, eu respondo, se achar que o devo fazer. Felizmente, as pessoas entendem que, dar-lhes o meu contacto não significa que possam invadir o meu espaço. Depois, eu também faço a triagem, se achar que é urgente respondo, caso contrário, respondo mais adiante em horário de trabalho. Com o tempo fui aprendendo a impor limites, sendo o mais difícil, impor limites a nós mesmos. Só depois de nos disciplinarmos a dizer “não” é que conseguiremos disciplinar os outros.

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