Casal pós-pandemia: guia de sobrevivência




Apesar de ainda não existir evidência científica sobre o impacto real da pandemia nas relações amorosas, através da minha prática clínica consegui perceber dois tipos de trajetória: aqueles cuja relação já evidenciava problemas prévios e que o confinamento acabou por agudizar, e aqueles que, não tendo tempo para o casal na rotina do dia a dia, acabaram por encontrar no isolamento uma forma para passar mais tempo em casal, promovendo a relação.


Efeitos negativos do confinamento

De acordo com a primeira trajetória que referi, tenho recebido vários casais que refletem efeitos negativos do confinamento, referindo que o confinamento pode ter contribuído para a má fase que atravessam atualmente, uma vez que a pandemia e os seus efeitos colocaram em perspetiva muitas questões e muitas relações também. Sabe-se que as separações aumentaram no pós-confinamento, por incapacidade para o fazer durante o isolamento. Todavia ainda não se conseguiu entender se existe um aumento efetivo de separações.

Algumas das consequências negativas passam pelo aumento do stress e intolerância dos casais face às situações do dia-a-dia, e ainda pela difícil articulação que a gestão dos filhos necessita. Algumas pessoas relatam sentir que o/a companheiro/a negligencia o seu trabalho, como se pudesse não ser feito para cuidar dos filhos, parecendo que o trabalho de um é mais importante que o do outro. A gestão das tarefas relativas aos filhos e à casa costumam estar na origem de muitos conflitos, as quais, depois se vão alimentando e engrandecendo, transformando-se em sérios problemas.

Estes tipos de problemas revelam dificuldades de comunicação e diálogo, essencialmente, e denotam pouca capacidade empática e flexibilidade para ceder em alguns aspetos. Podem ainda revelar dificuldades mais estruturais no casal, como as diferentes visões do mundo, da educação, do papel de cada elemento familiar ou até mesmo dos valores individuais de cada um.

Os problemas financeiros tornam tudo pior. O português tem um ótimo ditado para isto “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. As dificuldades financeiras são um enorme problema e uma grande fonte de stress. É difícil um casal e uma família funcionar de forma harmoniosa quando as necessidades básicas não estão supridas. Fazer uma gestão eficaz das finanças, diminuir gastos e trabalhar em conjunto tendem a ajudar.


Efeitos positivos do confinamento

Já na segunda trajetória, foi possível observar efeitos positivos em casais que já atendia previamente ao confinamento. Alguns deles estiveram este período sem consulta e, quando regressaram às sessões, evidenciavam melhorias devidas à maior disponibilidade para o casal e a família, permitindo estar mais próximos e fazer coisas que noutras circunstâncias não faziam.


O que fazer para ultrapassar possíveis problemas que estão a afetar as relações?

É necessário praticar a tolerância, a empatia e a flexibilidade. Relativizar o que não é verdadeiramente preocupante, entender que nesta fase o melhor de cada um é menos do que o desejado, mas que em conjunto as coisas se tornam menos pesadas. Dialogar é extremamente importante, explicar ao outro o que sentimos e escutar ativamente as inquietações do outro. É importante ainda recordar tempos passados mas felizes, o que sempre sentiram um pelo outro, o momento em que se conheceram, a forma como construíram a relação… no fundo, reviver sentimentos que por vezes nos esquecemos que nutrimos pelo outro. O casal precisa de entender que ambos jogam na mesma equipa, não em equipas contrárias. Isto não é um duelo em que alguém tem de ganhar. Ambos ganham ou ambos perdem.

Trabalhar a comunicação é importantíssimo e todo o ser humano tem a capacidade de se adaptar e mudar. Precisa para isso entender a necessidade de mudança e ter a motivação para isso. Contudo, nem sempre a compreensão da necessidade de mudança é suficiente, pois muitas vezes identificamos a necessidade, mas não conseguimos implementar a mudança por não saber como o fazer ou não compreendermos os nossos padrões de funcionamento. De igual modo, quando falamos em casais, é sempre necessário entender que os nossos comportamentos se interligam com os do outro e isso, dificulta o processo. Quando assim o é, recorrer à ajuda especializada é uma boa opção. Em conjunto encontrar-se-ão estratégias e identificar-se-ão padrões de comunicação e funcionamento que dificultam a relação entre o casal.


A necessidade de individualidade

É importante na organização familiar contemplar algum tempo para a individualidade. Só estamos bem na relação quando estamos bem connosco e, muitas vezes, para estarmos bem connosco precisamos algum tempo. Tempo para não fazer nada, muitas vezes. Tempo para carregar energias, para evitar a intolerância e o stress. O casal pode organizar-se de modo a que haja algumas horas na semana (dependendo da necessidade de cada pessoa) em que cada um possa estar consigo próprio, mesmo que seja apenas para ler um livro ou dormir um pouco. Praticar a individualidade é uma ótima forma de preservar o casal.


E os filhos? Como ficam no meio da tensão entre os pais?

Os filhos sentirão sempre a tensão dos pais. É ilusório achar que os filhos serão protegidos e, com o tempo, os filhos tenderão a replicar o comportamento dos pais, já que foi aquele que observaram. Mais importante do que não passar para os filhos, é importante que o casal se preocupe consigo mesmo e com a resolução dos seus conflitos. Tal como as coisas más passam para os filhos também as boas passam, por isso, mais importante do que esconder as más, é tentar estar efetivamente tranquilo na relação que se vive. A reação dos filhos será uma consequência disso.

Em suma e falando em termos mais práticos, valorize e reconheça as atitudes positivas do outro, ao invés de valorizar apenas as negativas. Lembre-se que é possível reacender a chama numa relação quando esta está quase a acabar. Reinvente-se, pratique a individualidade, exista para além do casal. O outro tende a admirar o seu companheiro/a quando este se encontra no seu contexto, quando tem valor enquanto ser individual e separado do outro.

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