Amar em tempos de crise

Amar em tempos de crise pandémica pode não ser fácil. O espírito de “sobrevivência” fala mais alto e vemos o nosso sistema ameaça hiperativado e, com ele, os comportamentos de hipervigilância em primeiro plano, como forma de nos preparar para uma resposta defensiva rápida e eficaz. O medo e a ansiedade, são normalmente as respostas emocionais primitivas que comandam nesta situação e, deste modo, somos sucumbidos por pensamentos e sentimentos que retiram não só tempo, mas também energia para podermos nos dar mais aos outros. O sistema de afiliação que envolve sentimentos de tranquilidade, segurança e bem-estar, por sua vez, pode ficar para segundo plano, assim como a procura em responder às necessidades do sistema de procura de recursos/incentivos, responsável pela ativação de sentimentos de vitalidade, energia, prazer, entusiasmo e que guiam comportamentos de aquisição. Assim, a desativação destes dois sistemas irá levar a que o individuo esteja mais "fechado" para o exterior, com menos comportamentos pró-sociais e mais auto-centrando em satisfazer as suas necessidades mais básicas, como a segurança.


Em contrapartida, existe a sobreativação do sistema ameaça criando assim um possível desequilíbrio, do nosso organismo, quando o seu objetivo é o contrário, a homeostasia, a procura de um equilíbrio e obtenção de um nível ótimo que nos proporcione bem-estar físico e emocional. Com isto, poderá trazer consequências para os nossos relacionamentos, nomeadamente, os mais íntimos e que nos sustentam quando procuramos o tal equilíbrio emocional. As discussões poderão agora estar mais “acesas” e frequentes, as diferenças que antes existiam, parece que agora ganham outra dimensão e as palavras amargas agora têm um sabor mais intenso. Tudo é vivido de uma forma que, se as coisas não estivessem diferentes, seriam com certeza, menos difíceis.


“Todos os dias precisamos tomar a decisão de amar a mesma pessoa”. Esta talvez seja uma decisão mais difícil, sobretudo, quando estamos a viver num período de incerteza e instabilidade como este. Isto envolve esforço, envolve "morrermos" um pouco para as nossas próprias ambições, desejos e tomarmos a decisão de estarmos prontos para também ceder, engolir algum orgulho e ouvir mais o outro, estar disponível, tentar compreendê-lo mesmo que isso possa estar a ser difícil no meio das nossas preocupações. É, deste modo, importante estimularmos sentimentos de calor, tranquilização e conexão com os outros, só desta forma, podemos reduzir o sofrimento em resposta à ameaça.


Uma pandemia não deixa de ser um stressor global com graves efeitos a nível profissional, pessoal e social, mas também conjugal. O impacto da COVID-19 poderá sim ter um impacto nos casais, nomeadamente, ao nível do stress, ansiedade, depressão, satisfação com a relação e com o bem-estar conjugal que devem ser consideradas. Embora, não sejam sentidas da mesma forma por todos os casais, sobretudo, aqueles que podem não estar a viver numa situação de isolamento em conjunto.


E como podem, em casal, ajudar-se mutuamente e usarem estratégias de coping para lidarem em conjunto com este momento mais stressante?

1) Demonstrar apoio, estando do seu lado para lidar com os stressores que estão a destabilizar emocionalmente a/o sua/seu companheira/o.

2) Não responsabilizar/criticar pela forma como este/a gere a situação e sim, ajudar a ver a situação como algo desconfortável mas possível de ser vista e lidada de outra forma.

3) Analisar possíveis problemas de forma conjunta, ajudando-se mutuamente a colocar o problema em perspetiva, analisando-o de forma mais objetiva e compreendê-la tentando mudar o foco do problema.

4) Ouvir e dar a oportunidade ao seu/sua companheiro/a de comunicar os seus pensamentos e emoções acerca do que tem sentido e que o/a preocupa.

5) Não desvalorizar o stress sentido, cada pessoa tem uma forma de sentir, pensar e comportar única e, portanto, deve ser respeitada. A simples demonstração de vontade e motivação em querer ajudar o/a seu/sua parceiro/a poderá ser o suficiente para que sinta apoiado/a e menos sobrecarregado/a com o desconforto sentido.

6) Participar mais nas atividades domésticas e outras que podem requerer ajuda do conjugue. A sobrecarga de tarefas podem ser um despoletador de discussões.

7) Relaxar juntos, há sempre atividades que podem proporcionar um ao outro relaxamento e que tão bem sabem como fazê-lo.


Lembrar-nos que esta situação embora não se saiba quando, ela irá terminar, não durando para sempre. Há decisões que só dependem de nós, como a de amar/cuidar de quem gostamos e de nós próprios, e é nessa decisão que devemos focar-nos em períodos de crise, como esta.


Rita Santiago

Psicóloga

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