Adolescência, Funcionamento Familiar e Suicídio

Os modelos teóricos que exploraram a relação entre o funcionamento familiar e a existência de suicídios ou de tentativas de suicídio surgiram na literatura da Psiquiatria e da Psicologia Clínica num período em que emergia um novo paradigma: o paradigma sistémico (Bongar, Goldberg, Cleary e Brown, 2000). Alguns destes modelos apresentam hipóteses clínicas que não são validadas ou que são claramente contestadas pela investigação empírica contemporânea, contudo a sua referência continua a ser importante para ilustrar a evolução conceptual que ocorreu em torno deste tema.


À semelhança do que aconteceu nas primeiras formulações de alguns modelos de terapia familiar, o estudo da relação entre interacções familiares e tentativas de suicídio foi fortemente influenciado pela Psicanálise. Sabbath (1969) propõe o conceito de criança dispensável para explicar o suicídio na adolescência. Segundo este autor, o adolescente suicida reagiria inconscientemente aos desejos hostis da família, ao desejo que esta teria em ver-se livre dele. O adolescente tornar-se-ia dispensável ou, de outro modo, num elemento não tolerado ou necessário para a família.


Noutra formulação, Richman (1986) defende que as famílias em que ocorriam tentativas de suicídio apresentavam relações familiares desequilibradas e conflitos de papéis, recorrendo igualmente ao uso sistemático de bodes expiatórios e de double-binds comunicacionais. Existiria ainda um excesso de secretismo e de proibição de intimidade que conduzia a um isolamento do potencial suicida dentro da família. Este autor defendeu também que o padrão comunicacional das famílias suicidas era marcado pela existência de relações simbióticas, de um medo intenso da mudança e de separação entre os seus elementos.


Orbach (1986;1989) apresenta também algumas hipóteses sobre as dinâmicas familiares de adolescentes com comportamentos suicidas. Estas caracterizar-se-iam por processos de clivagem entre os membros da família e o adolescente, conduzindo-o a um ponto de total alienação que podia culminar num acto suicida. O adolescente lidaria com esta clivagem interpessoal, criando uma clivagem intrapsíquica entre um si suicida e um si não suicida.


Numa perspectiva diferente e já bem distante deste tipo formulações mais psicanalíticas, Aldrige (1984) explora diversos conceitos relevantes para a descrição da comunicação familiar em famílias onde ocorrem suicídios ou tentativas de suicídio. Segundo este autor, existem alguns factores na comunicação familiar associados ao suicídio: a) um padrão de hostilidade marcada; b) um padrão de perturbação de papéis e falha de papéis; c) um processo de escalada de conflito quando ocorre uma mudança desenvolvimentista relacionada com o ciclo vital da família; d) uma relação simbiótica entre parceiros que não tolera a autonomia; e) intolerância à crise; f) uma relação entre gestão de crises, conflito familiar e organização familiar; e) comportamento suicida como uma forma de comunicação; e f) existência de uma tradição familiar de gerir as crises através da manifestação de comportamentos sintomáticos.


Num modelo também já claramente sistémico, Sampaio (1991) realça a natureza interactiva e comunicacional do suicídio e das tentativas de suicídio na adolescência. O suicídio é visto como uma metacomunicação, ou seja, como uma comunicação sobre a comunicação familiar. Levando esta hipótese mais longe, este autor propõe que a tentativa de suicídio é uma injunção paradoxal que visa a mudança no sistema familiar.


Tomando estes pressupostos, e recorrendo a uma formulação do Grupo de Palo Alto, Sampaio (1991/2002) propõe que as tentativas de suicídio na adolescência podem ser classificadas em quatro tipos fundamentais: apelo; desafio; renascimento; e fuga. Este trabalho mostrou também que as tentativas de suicídio do tipo apelo e desafio surgem mais associadas a uma atribuição externa da tentativa de suicídio (i.e., quando existe um contexto interactivo mais nítido), enquanto as tentativas de suicídio do tipo renascimento e fuga estão associadas a uma atribuição interna do gesto suicida (i.e., quando as razões para a tentativa de suicídio são atribuídas ao próprio).


A base sistémica deste modelo aliada aos dados empíricos encontrados permite sistematizar alguns pressupostos para a compreensão e intervenção em adolescentes com tentativas de suicídio. De forma muito resumida, o autor propõe uma intervenção de carácter individual, familiar e social, cujo objectivo seria o de levar o adolescente a reflectir sobre o seu processo de desenvolvimento psicológico e a criar uma possibilidade da família transformar o seu modo de comunicação e as suas relações com a comunidade.


Deste modo, e como já referimos noutro texto onde desenvolvemos um pouco mais este modelo, quando trabalhamos com famílias de adolescentes que apresentam tentativas de suicídio ou outros comportamentos autolesivos é fundamental focar a intervenção terapêutica nos seguintes pontos:


- Identificar os padrões disfuncionais e geradores de conflito;

- Diminuir a rigidez e aumentar a flexibilidade;

- Atenuar a conflitualidade intrafamiliar;

- Trabalhar a comunicação, diminuindo a ambiguidade e insuficiência das mensagens, os paradoxos e as situações de double-bind;

- Ampliar as redes de sociabilidade da família, quer do ponto de vista do conjunto familiar quer dos seus membros individuais (Sampaio, 1991/2002).


A conjunção destas hipóteses provenientes dos modelos teóricos de inspiração sistémica com a experiência da prática clínica, e ainda o conhecimento dos dados empíricos da investigação científica, permitem a cada terapeuta familiar construir uma base para dar resposta aos adolescentes e às famílias que o procuram em situações de crise. A partir dessa base construir-se-á um processo terapêutico adaptado às singularidades de cada família, à sua história, à sua cultura, às suas linguagens, aos seus recursos, à sua capacidade de regeneração e transformação.


Referências Bibliográficas

Aldrige, D. (1984). Family interaction and suicidal behaviour: a brief review. Journal

of Family Therapy, 6, 309-322.


Bongar, B., Goldberg, L., Cleary, K. & Brown, K. (2000). Marriage, Family, Family Therapy and Suicide. In R. Maris, A. Berman & M. Silverman (Eds.) Comprehensive Textbook of Suicidology (222-239). New York: Gilford Press.


Orbach, I. (1986). The “Insolvable Problem” as a Determinant in the Dynamics of

Suicidal Behavior in Children. American Journal of Psychotherapy, XL,4, 511-520


Orbach, I. (1989). Familial and Intrapsychic Splits in Suicidal Adolescents. American

Journal of Psychotherapy, XLIII, 3, 356-367.


Richman, J. (1986). Family Therapy for Suicidal People. New York: Springer.


Sabbath, J. C. (1969). The Suicidal Adolescent - The Expendable Child. Journal of

the American Academy of Child Psychiatry, 8, 272-289.


Sampaio, D. (1991/2002). Ninguém Morre Sozinho: O Adolescente e o Suicídio. Lisboa:

Caminho.

Nota- Para uma leitura mais aprofundada sobre este tema, poderá consultar o seguinte texto: Frazão, P., Santos, J.C., & Sampaio, D. (2014). Família e Suicídio. In C.B. Saraiva, Bessa Peixoto, & D. Sampaio (Coordenadores), Suicídio e Comportamentos Autolesivos: Dos Conceitos à Prática Clínica (135-143). Lisboa: Lidel, Edições Técnicas.)


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