A perda é uma ferida para ser tratada



Num país pouco habituado ao cuidar da saúde mental, não é raro encontrarmos muita incompreensão e intolerância para com o sofrimento psicológico.


Aceito esta dificuldade o mais impávido possível, afinal advém de factores sócio-culturais contra os quais apenas tempo e sensibilização podem ter algum efeito.


Contudo, em consulta, denoto um fenómeno que não me deixa indiferente: os pacientes por vezes dizem afirmações sobre si próprios de uma crueldade enorme.

Criticam-se com uma crueza com que não conseguem criticar mais ninguém, exigem de si mesmos exigências que nunca iriam impor a outros, são imperdoáveis como se fossem o seu pior inimigo.


Enquanto psicólogo tenho uma visão muito centrada na pessoa sentada à minha frente: só o bem-estar psicológico desta pessoa me importa, e confesso, por vezes, ouvir alguém em consulta a dizer "mas bem, estúpido/fraco/medíocre/incapaz como sou é de esperar" atinge-me de uma maneira que por vezes devolvo à pessoa e lhe chego a dizer: "ouvi-lo a dizer isso até me entristece, e fico a pensar como sente que alguém que lhe é próximo (um familiar, um amigo próximo, um companheiro) se sentiria ao ouvir o que diz de si mesmo". Frequentemente exagero e pergunto quantas vezes chamou estúpido/fraco/medíocre/incapaz às pessoas com quem se preocupa...normalmente nunca chamaram nem nunca o vão fazer, esse nível de crueldade guardam para si mesmos.


Dentro dos diversos quadros que surgem em consulta, é frequente deparar-me com este género de crueldade e intolerância em quadro de luto.

Talvez porque exista uma visão utilitária da vivência psicológica: se não é útil, se não resolve nada no imediato, tem que ser reprimida.

"Estar a chorar não o/a vai trazer de volta" é a frase de eleição.


É verdade. A morte é o fim, sobre isso nada há a fazer.

Mas para quem está a sofrer, os que cá ficam, sofrem, e sobre esses há muito a fazer. Não sobre a morte, mas sobre a ferida e a mágoa da perda que quem fica sofre.


Estou a divagar (mas está relacionado prometo), mas esta perspectiva faz-me lembrar os calendários de actividades de férias da escola da minha filha. Em género de caricatura:

9:00h - 9:30h - "Apanhada: actividade lúdica que estimula a coordenação motora e a compreensão do espaço tridimensional durante a deslocação de objectos" ou algum disparate semelhante.

Aí da escola que se atreva a dizer que os miúdos estão a brincar! A brincar não, estão a "desenvolver a competência não-sei-quantas e o chavão-banha-da-cobra da moda". Porque tudo tem que ter uma utilidade palpável e imediata. É um reflexo social, mas também um sintoma pequeno da patologia grave que nos assombra a todos: não querer saber viver com emoções que não se enquadram em chavões optimistas com resultados imediatos, emolduráveis.


Portanto vamos anunciar ideias:

a) tal como brincar, apenas por brincar, "chorar por chorar" serve um propósito.

b) os ganhos pessoais vão para além daquilo que é imediatamente palpável ou demonstrável.


Vamos então entender o propósito do luto, dos mecanismos da perda. Daquele choro que não traz ninguém de volta mas teima em existir apesar de "não servir para nada".


Mas serve. A tristeza serve como processo de cura, de reconhecimento da dor, de motivador para procura de "anestesia", como indicador da necessidade de relação. A dor tem que ser abordada, mexida, para não perdermos a capacidade de amar.

Começando por um paralelismo, um exemplo: em miúdo cortei-me gravemente na mão.

Ninguém me disse "deixa-te de coisas, ignora que o sangue pára". Chamaram o 112 (na altura 115).

Ninguém me disse "aguenta" - Deram-me analgésicos.

Ninguém me disse "isso passa" - Cozeram-me.

Ninguém me disse "epá vou-me afastar de ti porque agora não podes usar a mão" - Amigos foram ver-me a casa.

Ninguém me disse "Ok, agora não mexas, não penses nisso, não faças nada" - Mandaram-me fazer fisioterapia.

Portanto, tudo normal certo? Ninguém iria tratar um ferimento grave de outra maneira, é quase lógico correcto? Contudo, nem sempre é assim que lidamos com a perda de alguém que amamos.

"Isto não serve para nada". "Não posso estar triste ao pé dos amigos que se aborrecem", "Vou ignorar e pronto passa".


Mas a morte de alguém não é uma ferida grave?


Das mais graves e dolorosas que podemos sentir?


E cada "ferida" tem a gravidade na mesma proporção que a relação tinha para nós. Portanto não é comparável. A intensidade da dor não está controlada por factores externos, mas depende sim, de factores internos aos quais não temos controlo (porque não vamos evitar viver - sim, porque viver é sempre na relação com o outro - para controlar e evitar a dor da perda certo?).


Então porque não tratamos essa ferida, reconhecemos essa dor, a necessidade de tratamento?

Tal como numa ferida física também precisamos do nosso 112...os nossos amigos, familiares, os nossos enfermeiros da dor. Também precisamos de analgésicos, saber reconhecer que doí e investirmos no que nos alivia o sofrimento. Também precisamos de pedir ajuda quando não conseguimos mexer, seja a mão, seja sair da cama porque o dia parece negro. Tal como a fisioterapia também é preciso exercitar o que nos doí e custa a "mexer". Só assim, com tratamento e tempo a ferida sara. Na semana seguinte doí imenso e temos uma cicatriz feia, em meses, está sensível ao toque e queremos afastar a "ferida" de tudo e todos; no próximo ano, às vezes, doí quando chove, da humidade talvez, e talvez, com ajuda, cuidado e compreensão, no futuro, ficamos com uma marca, uma cicatriz que fica connosco para sempre, que nos relembra que ali esteve algo e agora já não está.


E aí sim, a vida continua. Com cicatrizes que fazem parte de nós.

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